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junho 29, 2012

Trabalho integrado, palavra-chave do desenvolvimento sustentável

por Adriana Boscov

Há vinte anos, durante a Eco92, a primeira grande reunião governamental sobre o meio ambiente, ONGs estavam presentes para demandar mais cuidado com o planeta, enquanto os líderes políticos discutiam duas convenções – a Convenção da Biodiversidade e a Convenção do Clima, mais conhecida como Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas – e a Agenda 21. Os três documentos apresentavam recomendações de como os seres humanos de todo o planeta poderiam diminuir a degradação ambiental e garantir a existência das gerações futuras.

Em junho (de 13 a 22), centenas de reuniões envolvendo governos (delegações de 196 países), ONGs (centenas de todas as partes do mundo e que trabalham com as mais diversas causas) e empresas (representando todos os setores da economia) aconteceram no Rio de Janeiro, evento mais conhecido como Rio+20. Vinte anos depois, evoluímos em algumas questões como redução da mortalidade infantil, ampliação da rede de saneamento e diminuição do ritmo de desmatamento. Em contrapartida, em outros aspectos pioramos muito: volume de emissões de gases de efeito estufa, perda de biodiversidade e da qualidade de vida nos grandes centros urbanos. Éramos 5 bilhões de habitantes e agora somos 7 bilhões e a pergunta que tentamos responder nessas discussões é “o modelo de economia atual é viável ou devemos pensar em uma economia verde e inclusiva?”

A maior diferença entre os dois eventos foi a massiva participação do setor empresarial na Rio+20, tendo em vista que durante a Eco92 optou por somente assistir. No dia em que a presidente Dilma abriu oficialmente a Rio+20 para as diversas delegações governamentais no Riocentro, o Pacto Global, iniciativa empresarial da ONU, começava o Fórum Empresarial de Sustentabilidade (Corporate Sustainability Forum), no Hotel Windsor Barra.  Cerca de 3 mil participantes, representantes de governos, ONGs, empresas e academia, se reuniram por cinco dias para discutir questões como água, biodiversidade, ética e negócios sustentáveis, dentre outros. O objetivo foi trazer diferentes perspectivas sobre cada tema, apresentar cases que envolvem a participação empresarial, tratar de futuras regulamentações e apresentar recomendações às delegações sobre o que esperar do setor privado e o que as empresas esperam de seus governos.

O setor financeiro foi destaque no encontro. Bancos, investidores, seguradoras, fundos de pensão, bancos centrais e bolsas de valores apresentaram suas iniciativas e responderam perguntas nem sempre fáceis de responder. Veja os principais destaques dessas discussões:

  • Em muitas das apresentações ficou claro que educaçãodiversidadeinovação e complexidade são as palavras que envolvem o conceito de desenvolvimento sustentável e devem estar no radar das empresas.
  • Outra questão repetida exaustivamente foi o eterno debate entre curto e longo prazo. Para um resultado que traga valor no presente e que seja transmitido para o futuro, empresas, investidores, acionistas e clientes devem desenvolver relações de negócios de longo prazo para o desenvolvimento da sociedade em que estão inseridos e não somente preencher suas necessidades individuais imediatas.
  • Os mercados financeiros têm trabalhado para que as empresas e profissionais do setor possam mudar sua forma de avaliar empresas a fim de buscar geração de valor, mas ainda estamos longe de uma visão de longo prazo e geração de valor.
  • Não há um modelo que sirva para todos. A complexidade do mundo globalizado e superpopuloso leva a pensar estratégias que devem se adequar a culturas locais com relações intercontinentais e intergeracionais.
  • Durante o painel Adoção e monitoramento da sustentabilidade por conselhos de administração, destacou-se que os conselhos não associam questões de sustentabilidade com reputação e perda de valor a longo prazo. A capacitação dos conselheiros no tema é fundamental para uma visão mais holística e estratégica do negócio. Outro ponto destacado foi que, sem diversidade de perspectiva, não há crescimento ou inovação. Por isso a importância de conselheiros com diversidade de etnia, gênero, competências e conhecimento de setores diversos, para que atuem de forma mais eficiente em um mundo com uma complexidade cada vez maior.
  • No painel que discutiu comunicando valores ambientais, sociais e de governança (ASG) na interface entre companhias e investidores, o senso comum é de que os acionistas e a maioria dos analistas de mercado e investidores ainda não conseguem tangibilizar a importância do tema em suas avaliações. As grandes causas para isso são a visão de curto prazo de analistas e investidores, a diferença de terminologia e a falta de métricas capazes de medir valor atrelado ao desempenho financeiro. Sistematizar a apresentação desses temas de forma regular, demonstrando o valor agregado ao resultado financeiro, poderá trazer maior entendimento sobre a questão, que assim será adotada por um grupo cada vez maior de acionistas, analistas e investidores.
  • No painel O futuro da saúde destacou-se que a obesidade será a grande epidemia do século XXI, que 30% das despesas de saúde são perdas que poderiam ser evitadas e que investir em tecnologia não será suficiente para evitar o colapso do sistema de saúde. Segundo os especialistas, o sistema de saúde não é um problema de tecnologia ou de suficiência de rede, mas sim um problema da sociedade e de como ela cuida de sua saúde, o que significa que tratar da saúde é tratar de e com pessoas.
  • Durante a discussão sobre Relatórios integrados e inovação: a comunicação do século XXI,  fica claro que o princípio do relatório anual ou relatório de atividades não é ajudar na decisão de compra ou venda de ações, mas de conhecer a empresa e sua estratégia. O relatório é uma ferramenta de construção de confiança e, por isso, deve ser transparente e equilibrado.
  • De 1992 a 2012: 20 anos de sustentabilidade no setor financeiroapresentou as grandes evoluções do setor com a implantação dos Princípios do Equador, Princípios do Investimento Responsável (PRI) e o lançamento dos Princípios para Sustentabilidade em Seguros (PSI),  todas iniciativas lideradas pela UNEP FI. Do ponto de vista do setor segurador, foi destacado pela Munich Re que, se os efeitos dos eventos climáticos catastróficos/extremos continuarem a crescer nos níveis atuais, o setor de resseguros poderá não ser mais capaz de cobrir os custos a partir de 2020. Isso faz com que seja cada vez mais premente que seguradoras trabalhem com os reguladores para que a legislação evolua de forma a distribuir os riscos entre empresas, clientes e governos, para que as empresas possam gerar lucro sustentável (=recorrente).

Entre tantas discussões uma coisa fica clara: se os diversos atores (governo, empresas e sociedade civil) não trabalharem juntos, não teremos o tão almejado desenvolvimento sustentável. O primeiro draft do texto da Rio+20 já apresenta um caminho para os princípios e diretrizes para isso. Ele pode não ser perfeito, mas mostra um caminho. Agora será preciso um plano de implementação dessas diretrizes e o papel das empresas nessa etapa é ainda mais fundamental.

Adriana Boscov é superintendente de Sustentabilidade da SulAmérica Seguros

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