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outubro 7, 2013

Clima, desastres naturais e o mercado segurador

por Sônia Araripe

A quinta versão do Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas deixou um recado muito claro. A ação do homem está influenciando sim, diretamente, as mudanças climáticas. De acordo com o texto divulgado pelo grupo de trabalho 1 do IPCC, em Estocolmo, Suécia,– formado por 259 renomados cientistas de 39 países, inclusive o Brasil – há 95% de probabilidade de que mais da metade da elevação média da temperatura da Terra entre 1951 e 2010 tenham sido causadas pelo homem. Os gases de efeito estufa contribuíram para o aquecimento entre 0,5 e 1,3 graus Celsius (ºC) no período entre 1951 e 2010.

Os cientistas trabalharam com cenários, entre os mais pessimistas e mais otimistas. No caso mais otimista, a elevação da temperatura varia entre 0,3°C e 1,7ºC no período 2081-2100 frente à média observada entre 1986 e 2005.
Já na hipótese mais pessimista, o planeta ficará entre 2,6ºC e 4,8°C mais quente na mesma comparação. Os esperados efeitos para a vida em diferentes pontos do planeta são drásticos: haverá degelo mais acelerado, as águas do mar devem se elevar e é bem possível que hajam mais inundações em grandes cidades. Como já temos visto em vários episódios de desastres naturais recentes, os países mais pobres, que estão menos capacitados para lidar com a mudança rápida, deverão sofrer mais.

O grupo do IPCC alertou que a elevação das águas pode ficar entre 26 cm, no melhor cenário, e 82 cm, na pior estimativa, durante o século 21, contra a projeção de 2007, muito criticada por anunciar elevação entre 18 cm e 59 cm.

A previsão dos cientistas é que dez cidades deverão ser mais afetadas por inundações até 2050 uma lista incluindo a cosmopolita Nova York, Mumbai (na Índia) e três grandes centros na China. Somados, os prejuízos calculados até agora chegam a casa dos US$ 38 bilhões, como divulgou recentemente a BBC.

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos seis brasileiros que participaram da elaboração desse relatório, chamou a atenção para as possíveis conseqüências para rios como o Amazonas. “O nível dos oceanos já subiu em média 20 centímetros entre 1900 e 2012. Se subir outros 60 centímetros, com as marés, o resultado será uma forte erosão nas áreas costeiras de todo o mundo. Rios como o Amazonas, por exemplo, sofrerão forte refluxo de água salgada, o que afeta todo o ecossistema local”, disse Artaxo.

O consultor Sérgio Abranches, em artigo no Portal Ecopolítica, frisou que “uma importante ante mensagem deste novo relatório é que a alta confiança de que a mudança climática em curso reforçará a tendência futura de mudança climática, pois tende a exacerbar o volume de CO2 na atmosfera.”

Para quem não se lembra, os cientistas que integram os grupos de trabalho do IPCC – entre eles vários brasileiros de renome, como os professores Carlos Nobre, José Marengo, Paulo Artaxo e Suzana Kahn – foram os vencedores do Prêmio Nobel de 2007 pelo relevante trabalho que estão desenvolvendo. E é bom frisar também que a prestigiada premiação foi pelos esforços pela Paz, no mesmo ano que o ex-vice-presidente norte-americano, Al Gore, também foi agraciado com a láurea. O comitê destacou os esforços de ambos para “construir e divulgar um maior conhecimento sobre a mudança climática causada pelo homem e por fixar a base das medidas que são necessárias para resistir a essa crise”.

Todos estes cenários apresentados – a se concretizarem nestas proporções ou em escala maior ou menor – terão, sem dúvida, impacto na indústria de seguros. Sempre agindo antecipadamente, na previsão, pensando em como enfrentar os efeitos da ação humana no aquecimento global, o mercado segurador tem participado ativamente deste debate.

Foi o que aconteceu em recente evento realizado na Academia Brasileira de Ciências e The Geneve Association, no Rio de Janeiro, com o apoio da CNseg e seguradoras. O seminário “Mudanças climáticas e desastres naturais no Brasil: desafios e oportunidades para o setor de seguros” reuniu executivos do mercado, academia e o público em geral interessado no tema. Palestrantes nacionais e internacionais de renome abordaram vários aspectos envolvidos nesta abordagem.

Logo na abertura, o vice-presidente da FenSeg, Carlos Alberto Trindade, afrimou que, no caso de mudanças climáticas e desastres naturais, o mercado ainda não tem uma modelagem correta para fixar prêmios justos. Por isso, destacou, é tão importante estreitar os laços de parceria entre o mercado e especialistas da academia. O professor Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTII), um dos principais especialistas em clima do Brasil e do mundo, também foi na mesma direção, sugerindo inclusive possíveis parcerias no modelo de PPP entre o mercado segurador, governo e academia. Nobre citou o bom trabalho do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas aos Desastres Naturais (Cemaden) e sugeriu uma aproximação do mercado da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), criada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP). O presidente da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis, também concordou com a relevância da parceria de acadêmicos e o mercado segurador. Outro palestrante ilustre foi Agostinho Tadashi Ogura – pesquisador do Laboratório de Riscos Ambientais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo S.A. – IPT, ao destacar a importância do intercâmbio de informações. Os palestrantes nacionais e especialistas internacionais chamaram a atenção para impacto das mudanças climáticas e desastres naturais em grandes cidades e obras de infra-estrutura.

Já foi o tempo que não havia mais nada a fazer do que esperar as catástrofes acontecerem. O mercado de seguros está fazendo a sua parte através de um dever-de-casa com afinco. E os outros setores?

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros
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