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junho 10, 2013

Logística reversa: o ciclo completo

por Sônia Araripe

Entrevistei o biólogo Mário Moscatelli sobre a qualidade das águas do Rio de Janeiro. Especialista no tema, ele vigia de perto a sua área de estudo, quase como um “guardião” e denuncia o que avista: alerta que, de barco ou do helicóptero, encontra todo tipo de lixo nos rios que foram o berçário da Baía de Guanabara. De sofás a carros inteiros.

É inadmissível que a Cidade que receberá tantos eventos relevantes de porte global – como a Copa das Confederações, Jornada da Juventude, a Copa do Mundo e as Olimpíadas – ainda enfrente problema tão dramático como este. E ninguém duvida que a Baía de Guanabara é, e sempre será, um dos principais cartões de visitas do Rio de Janeiro. Moscatelli mostrou que não existe um só culpado e sim um conjunto de fatores a contribuir para este triste quadro. E lá estamos nós, consumidores/moradores, que ainda permitimos o despejo de lixo in natura na Baía da Guanabara ou de seus berçários.

Fica mais do que evidente que apenas com a vigilância e participação de todos os “atores” envolvidos será possível esperar soluções. É preciso, com urgência, refletir sobre isso e ainda trazer o diálogo a luz da nova Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), discutida e debatida ao longo dos últimos 20 anos até efetivamente tornar-se realidade. A Lei nº 12.305/10, que instituiu a PNRS, foi regulamenta pelo Decreto nº 7.404/10, e estabelece o marco regulatório para a área de Resíduos Sólidos.

Se o consumo tem sido tão enaltecido e estimulado ao longo das décadas, o que foi efetivamente feito para que também pensemos na hora do descarte? Se o consumo pode causar tanto prazer, o que a sociedade tem feito para pensar e participar do término de vida de cada produto até o caminho da reciclagem?

Todos os segmentos da economia são impactados, do início ao fim de cada processo. A legislação já estabeleceu prazos para algumas cadeiras produtivas – como pilhas e baterias de celulares – e, se não houver pressão dos municípios e nada mudar, o prazo para o fim dos lixões é 2014, com recuperação das áreas degradadas.

Qual será o impacto para o mercado segurador, importante elo da economia em diferentes ciclos produtivos? Em evento realizado recentemente pela CNseg, em parceria com a Funenseg, este tema foi amplamente debatido. “Impactos jurídicos e operacionais da Política Nacional de Resíduos Sólidos no Mercado Segurador” reuniu alguns dos principais especialistas no assunto.

A diretora executiva da CNseg, Solange Beatriz, destacou que a partir da entrada em vigor da Lei, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos, a preocupação com o tema no mercado segurador deixa de ser facultativa, passando a ser obrigatória, devido à questão da responsabilidade compartilhada. “Diante disso, quais as práticas que podem ser incentivadas?”, questionou. “Todos nós temos comprometimento, responsabilidade e podemos ser cobrados por isso”, afirmou, lembrando iniciativas relevantes como o Protocolo Verde com o Ministério do Meio Ambiente e a adesão, junto à ONU, aos Princípios de Sustentabilidade em Seguros.

Especialistas em regulação de sinistros mostraram que nem sempre a incineração de produtos químicos é a melhor saída. E ficou claro que ainda será preciso conhecer muitos casos de sucesso, ouvir quem entende do assunto e compartilhar conhecimento e informação para se chegar às melhores práticas.

Da Argentina veio o Diretor do Centro de Experimentacion e Seguridad Vial, o Cesvi/Argentina, Fabián Pons. Ele mostrou que os benefícios trazidos pela legislação argentina que trata da reciclagem de peças automotivas. Não tão somente para o mercado de seguros da Argentina, mas também o impacto na redução da taxa de roubo e furto de veículos, ao desarmar o principal mecanismo de alimentação da indústria do desmanche ilegal. “A taxa de homicídios na Argentina caiu significativamente. Cerca de 30% dos homicídios ocorriam em assaltos aos motoristas”, revelou Fabián. Para completar, os preços de seguros caíram e houve solução para os resíduos sólidos. O Diretor do Cesvi/Argentina mostrou toda a bem-sucedida cadeia de reciclagem dos automóveis por lá.

Já no Brasil, atualmente, apenas em torno de 1,5% dos carros que saem de circulação no Brasil é destinado à reciclagem. É preciso que o destino desses produtos em desuso não seja o desmanche clandestino, o lixão ou o fundo de um rio. Nos Estados Unidos e na Europa, este índice supera os 90%. A expectativa é que no Brasil, este mercado avance a passos rápidos, ainda mais diante da recente decisão da Câmara dos Deputados de aprovar projeto que cria o desmente legal de veículos.

Tive a oportunidade de visitar um centro de reciclagem na Alemanha, na região industrial de Leverkusen, próximo de Munique. Nesta central havia destinação para 38 tipos diferentes de lixo! Assisti moradores que chegavam em seus carros para levar resíduos para serem reciclados: material de obras, móveis, peças de veiculos…. Senti a emoção de ver dever cívico de preocupação com o meio ambiente e com o próximo. Lá, como em vários países, há punição para quem deixa o lixo na rua ou em lugar inapropriado.

O Brasil tem ótimos exemplos para se orgulhar. Somos hoje o maior reciclador de latas de alumínio do mundo, com índice chegando a 92%. O trabalho está avançado em reciclagem de pilhas e baterias; há pontos de coleta em agências bancárias, supermercados e em vários outros comércios. Não é só. A Tetra Pak, maior fabricante de embalagens de caixas de leite/suco também tem se destacado também pro projeto implantado. O buscador Rota de Reciclagem, criado pela Tetra Pak, em plataforma do Google Maps, completou cinco anos, atingindo 650 mil visitas. Com aproximadamente três mil pontos de coleta seletiva cadastrados, distribuídos por todas as regiões do Brasil, a ferramenta auxilia os consumidores a encontrar os locais para destinarem as embalagens longa vida pós-consumo e outros materiais para a reciclagem.

As embalagens da caixinha do leite ou suco podem ser transformadas em caixas de papelão, canetas, vassouras, telhas e placas para construção civil, entre outros materiais. Em 2012, mais de 65 mil toneladas de embalagens da Tetra Pak foram recicladas. Essa quantidade representa um aumento de quase 10%, se comparado a 2011. Nesse período, 29% do total de embalagens comercializado em território nacional seguiram para reciclagem após o consumo. E o trabalho não para, pois a meta é chegar a 35% do total em 2015.

Os cuidados são ainda mais relevantes de acordo com o tipo de produto em questão. O Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev) também tem resultados na destinação correta de embalagens de defensivos agrícolas. De acordo com as últimas estatísticas do Inpev, entre janeiro e abril de 2013, tiveram o destino ambientalmente correto 13.431 toneladas de embalagens vazias de defensivos agrícolas em todo o país. A quantidade representa um crescimento de 6% em relação ao mesmo período de 2012.

Enfim, o PNRS está aí para valer. A hora de se adaptar e atender às suas exigências é agora. Cada um fazendo sua parte será possível que as próximas gerações cumpram o que as atuais e as passadas não conseguiram. Consumir é importante e necessário. Mas é preciso pensar no ciclo completo, do nascimento ao fim da vida útil do produto. Inclusive a reciclagem.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros
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