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março 13, 2013

A nova filantropia: no lugar apenas das doações, agora é a vez de se engajar e praticar a transferência de tecnologia e conhecimento

por Sônia Araripe

Bill Gates visitando um dos projetos que financia

Bill Gates visitando um dos projetos que financia

 

Desde o histórico compromisso das doações, praticando a filantropia, muitas mudanças aconteceram no cenário. Bilionários de diferentes países perceberam que é preciso ir muito além das doações, praticando o que os economistas passaram a chamar de ventury philantrophy ou a mistura de filantropia e gestão estratégica, com forte compromisso de engajamento.

Como na conhecida imagem de ensinar o mais necessitado a pescar – e não tão somente a ganhar a vara de pescar – este novo conceito caminha exatamente na direção de compartilhar soluções de tecnologia socioambiental para reduzir grandes distorções entre os países mais ricos e os muito pobres. No lugar de apenas doar recursos e acreditar que está, assim, ajudando a garantir seu lugar no “paraíso”, um número cada vez maior de afortunados está literalmente colocando “a mão na massa” e usando suas redes de conhecimento a favor desta democratização de conhecimento.

O verdadeiro “embaixador” deste movimento é ninguém menos do que o fundador da Microsoft, Bill Gates. Aos 57 anos, o americano sempre citado no topo da lista dos maiores bilionários do planeta, tem não só praticado esta nova filantropia, como também passou a liderar verdadeira “cruzada” para convencer amigos e outros ricos de diferentes países a fazer o mesmo. A campanha chama-se “Giving Pledge” e planeja viagens por vários países para atrair mais milionários a praticar o mesmo, cobrando resultados e colocando seus conhecimentos para a filantropia”.

Em recente e exclusiva entrevista para o repórter Raul Juste Lores, da Folha de S. Paulo, Bill Gates explicou que os países de renda média como o Brasil “deveriam doar mais e ajudar países muito mais pobres pelo mundo, especialmente em tecnologia agrícola e vacinação”.

Este já tem sido o trabalho desenvolvido pela Fundação Bill & Melinda Gates – criada em 2000 – no incentivo, por exemplo, a projetos de cura da poliomielite e AIDS. Não é só: nos Estados Unidos, os programas desta Fundação estão voltados para a formação de professores. O fundador da Microsoft anunciou que deixará 95% de sua fortuna pessoal para a filantropia. Nesta entrevista para a Folha de S. Paulo e outros três jornais, o empresário revelou que já conseguiu convencer 92 milionários americanos a fazer o mesmo, doando em vida e trabalhando, compartilhando conhecimento em projetos de filantropia. “Agora é hora de falar com bilionários pelo mundo. Muitos deles já fazem suas ações de filantropia, mas podemos fazer mais”, disse na entrevista em Nova York para a Folha. “Não será fácil, porque não existe a tradição. Pode até levar um tempo, mas vale a pena.”

No mesmo dia, ao divulgar a carta anual de sua Fundação, Bill Gates falou de progressos em educação e saúde, especialmente em países africanos. “A vida dos mais pobres melhorou com mais rapidez nos últimos 15 anos do que em qualquer outra época.”

A carta descreve um progresso notável desde escolas nos Estados Unidos até cuidados de saúde na Etiópia e defende que os investimentos contínuos nesses esforços fizeram uma diferença mensurável para milhões de pessoas entre as mais pobres do mundo. Uma das principais razões foi o comprometimento mundial em estabelecer metas claras e identificar as medidas corretas para impulsionar o progresso em direção a essas metas.

Gates ressaltou no documento a importância dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) das Nações Unidas como um exemplo de como o mundo é capaz de alcançar grandes resultados quando trabalhamos com uma meta clara e desenvolvemos as medidas para avaliar o processo. Os ODM são um conjunto de oito objetivos específicos, que são um esforço mundial sem precedentes para atender as necessidades das pessoas mais pobres do mundo até 2015. “Embora não alcancemos todos os objetivos, o progresso que fizemos para cada um deles é impressionante”, afirmou Gates. “O objetivo dos ODM de diminuir a pobreza extrema pela metade foi alcançado antes do prazo, bem como o objetivo de reduzir pela metade a proporção de pessoas que não têm acesso à água potável.”

De acordo com a última pesquisa publicada na Forbes, Gates já doou US$ 28 bilhões para projetos beneficentes (dados de junho de 2011). Gates não é o único super abonado a pensar e agir assim. Também o financista americano Warren Buffet, sempre no topo do ranking dos mais ricos do mundo, confirmou a cifra de US$ 8,3 bilhões em doações. Integram ainda esta lista de doadores engajados, o megainvestidor George Soros (US$ 8 bilhões), o cofundador da Intel, Gordon Moore (com US$ 6,8 bilhões doados) e o mexicano Carlos Slim (o homem mais rico do mundo) que doou US$ 4 bilhões.

De acordo com recente pesquisa da Community Wealth Ventures Inc, atualmente há cerca de 42 fundos de venture philantrophy nos Estados Unidos. Na Europa, onde este conceito passou a ser praticado anos mais tarde, por volta de 2005, são aproximadamente 26 fundos, dos quais 17 têm atuação internacional. Estes números continuam avançando.

Não se trata apenas de doar por doar. Todos têm participado de ações reais e decisivas na redução das imensas desigualdades entre países mais ricos e os muito pobres. Seja na Educação, em Saúde ou em pesquisas, os novos filantropos sabem que podem fazer diferença se conseguirem engajar um número cada vez maior de envolvidos com as boas causas.

Se vivemos a sociedade do conhecimento, de mudanças geradas a partir do compartilhamento deste saber, a nova filantropia pode, sim, impulsionar a conscientização de novas adesões, reduzindo abismos históricos colossais. A expressão filantropia, oriunda do grego, no sentido de ‘amor à humanidade’, ganha novo sentido.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros
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