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março 17, 2014

A questão do clima é urgente e decisiva

por Sônia Araripe

Em um passado não tão remoto, eram vistos como “catastrofistas” os que alertavam para a urgência da questão climática. Houve até mesmo quem duvidasse ou até desdenhasse de teses científicas sobre o aquecimento do planeta e seus efeitos em diferentes áreas. Recentes imagens de frio extremo nos Estados Unidos e Europa; de sofrimento e até mortes por calor extremo em cidades urbanas e de cheias em rios da Amazônia, que chegam a isolar o Estado do Acre por mais de 20 dias e causaram transtornos em toda a região, são a prova mais clara de que o tema é sim urgente e decisivo.

Mas como tratar de questão tão premente e abrangente? Cientistas, consultores, especialistas, empresários e a sociedade civil estão empenhados não só em acompanhar o que está acontecendo de tão dramático no planeta, mas, também, é claro, de achar soluções e alternativas para evitar seus efeitos na vida dos habitantes de diferentes pontos do planeta. No Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos (Suíça), reunindo a “nata-da-nata” dos principais chefes de Estado e também tomadores de decisão este foi um assunto relevante.

Portanto, não há mais dúvida: esta é sim uma questão econômica com efeitos imediatos nas principais potências. Ninguém menos do que o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, advertiu que as emissões de dióxido de carbono ameaçam comprometer os avanços do desenvolvimento econômico nas duas últimas décadas. Kim também alertou que governos, corporações de negócios e empresas deveriam tirar o foco e até desistir de financiar projetos da indústria de petróleo, gás, carvão e foi firme ao reforçar que principalmente estes setores devem ser obrigados a revelar seu nível de contribuição para os impactos climáticos.

Também na Europa, a reunião da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reuniu 34 países industrializados em Paris, também alertou para os altos custos da poluição de carbono.

O setor produtivo – diretamente envolvido – tem procurado fazer a sua parte. A gigante Coca-Cola, por exemplo, tem priorizado a água , energia e o clima como pilares dos mais relevantes em sua plataforma de sustentabilidade. Há outras, como as comunidades, direitos humanos, mulheres e embalagens. Mas clima, energia e água passaram a ser estratégicos para a corporação que sofreu vários ataques de ONGs e chegou a perder uma importantíssima licença na Índia, em 2004, por conta de grave crise de falta de água. O vice-presidente da Coca-Cola de meio ambiente e recursos hídricos, Jean Seabright, já foi braço-direito de Bill Clinton nesta área e tem colaborado para colocar o assunto do clima na ordem do dia na corporação.

Não é o único exemplo. Por todos os setores há casos assim. No Brasil, empresas reunidas no CEBDS – Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável – e em outros fóruns, como o Empresas pelo Clima (EPC), coordenado pela GVCes, estão debatendo a questão do clima e energia no seu dia-a-dia.

Chegando ao tema energia, gestores de projetos empresariais se questionam como viabilizar plantas futuras sem a garantia de energia? No Brasil, até mesmo grandes consumidores, os chamados alto-intensivos em energia, que buscaram produção própria – seja em hidrelétricas de maior porte, nas de menor porte (as chamadas PCHs) ou termelétricas – também estão muito preocupados. Diante de seca extrema, os baixos níveis de reservatórios e dúvidas sobre marco legal andam tirando o sono de muitos executivos e governantes.

Estivemos recentemente em viagem para reportagem no interior do Ceará – região acostumada com longos períodos de estiagem. A seca atual é vista como uma das mais graves dos últimos an os. Meteorologistas têm alertado que o clima está só começando a dar sinais e que o quadro no médio a longo prazo não é nada animador. Expedito Rebello, chefe da meteorologia do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), ligado ao Ministério da Agricultura, trabalha há 32 anos na área. Ele confirmou em entrevista ao Jornal O Globo, que o quadro é muito preocupante. “É a pior seca que já vi”, ressaltando, no entanto, que a questão do racionamento é assunto do governo.

Seca de um lado, inundações em outro. Na Amazônia, o Acre segue por mais de 20 dias isolado. Os impactos econômicos e sociais são visíveis. Os preços dos alimentos e da gasolina dispararam e a população humilde é a que mais sofre. Sobre o cenário da possível volta de racionamento, vale conferir artigo recente de Sergio Abranches alertando para o estrago provocado pela falta de planejamento. O título do artigo já dá o tom da prosa: “No setor de energia brasileiro não foi a água que sumiu foi o planejamento”.

O Brasil, como temos reiterado aqui mesmo neste portal, parece estar na direção certa rumo à migração para a sociedade de baixo carbono: hoje 45% de nossa matriz energética é de energias renováveis. A média no mundo é de menos de 20%. Pesquisas de ponta em biocombustíveis e energia limpa confirmar esta trajetória para a nova sociedade de baixo carbono. Recomendamos a leitura de dois livros que tratam destes temas: “Muito além da economia verde”, de Ricardo Abramovay e “A desgovernança da sustentabilidade”, por José Eli da Veiga.

No entanto, até melhorar, advertem os especialistas, infelizmente, ainda há muito o que piorar. Estarão melhor posicionadas as empresas, governos e sociedades que tiverem dialogado e refletido mais sobre estes temas tão urgentes.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros
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