Sugestões de como migrar para a economia de baixo carbono

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julho 15, 2014

Sugestões de como migrar para a economia de baixo carbono

por Sônia Araripe:

Muito tem sido falado sobre a migração do atual modelo econômico para a nova economia de baixo carbono. Este é, sem dúvida, um dos principais desafios globais.

Importante contribuição para este diálogo – sempre temos procurado reforçar em nossos artigos que trata-se de um diálogo em curso e não de um debate fechado – acaba de ser divulgada. Relatório preparado pela ONU, chamado “Pathways to deep decarbonization” foi lançado no último dia 8 de julho. O nome do trabalho não poderia ser mais preciso: “Caminhos para a Descarbonização Profunda”.

O principal trunfo do documento – preparado pela Rede de Soluções do Desenvolvimento Sustentável e pelo Instituto do Desenvolvimento Sustentável (Iddri) é trazer contribuições reais, concretas para a mesa de diálogo. E ainda colocar o “dedo na ferida”, justamente quando as negociações sobre o tema pouco têm avançado. Mostra, por exemplo, como países que lideram a lista de emissões de gases do efeito estufa, como a China e os Estados Unidos, podem acelerar este processo chamado pelos especialistas de “descarbonização” até 2050. Que nada mais é do que justamente mudar o atual modelo concentrado em combustíveis fósseis e fábricas que são altamente emissoras para um modelo que não seja tão emissor de carbono.

Está muito claro que corremos contra o relógio. Isso porque diante do irreversível e inevitável aquecimento global, ficou acordado que os países precisam reduzir suas emissões em patamares confiáveis de acordo com prazos estabelecidos. O projeto – encomendado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon – foi executado por um time de super craques no tema, algo como um dream team no assunto, vinculados a 30 instituições e centros de pesquisas internacionais. liderado por ninguém menos do que o Nobel Jeffrey Sachs.

Sachs, para quem não tem acompanhado sua recente produção acadêmica, é, sem dúvida, um dos principais interlocutores atualmente quando o tema é sustentabilidade. O professor da renomada Universidade de Columbia, com a sua incrível bagagem acadêmica e uma rede de relacionamentos de dar inveja a chefes de estado, “mergulhou” neste projeto com a ONU, que tem como meta ajudar a encontrar caminhos que viabilizem a tão sonhada economia sustentável. Sachs esteve no Brasil este ano lançando a Rede Brasileira de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável (RSDS Brasil), projeto dentro do mesmo “guarda-chuva” tratando sobre cidades sustentáveis.

O professor Jeffrey Sachs destacou que o relatório divulgado no dia 8 de julho “é a primeira iniciativa do seu tipo a tentar estabelecer planos concretos em torno das várias metas discutidas nas negociações do clima da ONU por duas décadas.” E foi mais adiante na entrevista. “Exaurimos o orçamento de carbono” advertiu Sachs. “O mundo, infelizmente, está engajado em um enorme jogo com o futuro do planeta.”

Dois relevantes especialistas no assunto do Brasil, ambos da COPPE-UFRJ participaram da equipe, os professores Emílio La Rovere e Cláudio Gesteira. Participam professores de 15 países, como Rússia, China, Japão, Canadá e Alemanha. Este é o primeiro informe de uma série que ainda prosseguirá e merece ser acompanha de perto.

O tom de urgência do tema foi reafirmado por Emmanuel Guérin, encarregado do projeto, alertando que não se trata agora de fingir que está fazendo algo. “As negociações são um jogo de blefe. Quase ninguém vê o que faltaria fazer para estar nesta trajetória, porque dizem que os outros não fariam. Aqui, dizemos: ‘Faremos todos, sem desculpas.’,

Não esperem meias palavras: o paper alerta que apesar das comunidade internacional ter estabelecido como meta limitar o aquecimento a 2°C para evitar os efeitos catastróficos das mudanças no clima, “muito poucos países levaram a sério o que isto implica”.

O estudo se baseia em três pilares para tentar traçar uma nova realidade: a promoção de soluções energeticamente mais eficientes; o uso de energias mais limpas e com pouca dependência do carbono; e a substituição dos combustíveis fósseis por outros meios menos contaminantes. O estudo também mostra quais passos os países devem adotar para chegar às metas acordadas internacionalmente, a fim de limitar o aumento da temperatura a 2°C após o início da Era Industrial.

A “ambição” é que, em 2050, as emissões de CO2 vinculadas ao consumo de energia (que não contam com o desmatamento e outras emissões de agricultura) sejam reduzidas em 45% com relação a 2010 (de 22,3 bilhões de toneladas para 12,3 bilhões de toneladas), com uma redução de 56% por habitante. O maior potencial de redução estria na produção de energia (-85% em 2050), residencial (-57%) e no de transporte de passageiros (-58%).

O trabalho mostra que até agora os esforços são pequenos, “marginais”, mas que nem tudo está perdido: há caminhos sim e que avançadas tecnologias de sequestro de carbono e o desenvolvimento de carros elétricos já estão em curso e poderão acelerar este processo.

Neste campo, especialistas têm mostrado que o Brasil dispões de muito a somar. É claro, ainda há muito por ser feito em termos de dever-de- casa – como na ampliação da redução do desmatamento, nas soluções para o nó na mobilidade das megalópoles como São Paulo e Rio de Janeiro e no maior uso de energias limpas -, mas já temos um “caderno” de experiências reais bonito para apresentar e compartilhar. Contamos com a exitosa realidade do biodiesel, o exemplo das energias limpas e estamos intensificando projetos de ecoeficiência industrial e também na energia doméstica. No campo do transporte de passageiros também temos experiências bem-sucedidas de ônibus elétricos e movidos a hidrogênio.

Em setembro próximo, Ban Ki-moon comandará uma Cúpula, em Nova York, sobre clima e todos os esforços estarão concentrados entre os negociadores para tentar avançar. O documento final desta primeira versão lançada agora será apresentado em 2015.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros
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