Um raio X sobre a reciclagem

Home » Artigos, Artigos Sônia Araripe, Home » Um raio X sobre a reciclagem

dezembro 1, 2014

Um raio X sobre a reciclagem

Costumamos ter uma verdadeira angústia na solução de mazelas graves. Como se, em um passe de mágica, fosse possível acordar e ter tudo resolvido. Se nem no nosso dia-a-dia estas respostas não costumam vir da noite para o dia, muito menos em questões sérias, com impacto macro sobre toda a sociedade. Poderíamos, sem margem de dúvida, considerar a questão dos resíduos sólidos um destes temas urgentes, com todo o seu impacto econômico, social e ambiental.

O sonho, claro, seria acordar e não termos mais lixões degradantes a céu aberto e termos funcionando todo o arcabouço legal definido na Lei nº 12.305/10. No entanto, é bom lembrar que levamos cerca de 20 anos – ou até mesmo mais – até que a vigente Política Nacional de Resíduos Sólidos saísse da promessa e virasse realidade. Todo o processo de diálogo, embates e negociação até aqui serviu para amadurecer ainda mais este tema tão relevante para o Brasil.

Na verdade, alertam especialistas, estamos começando bem tarde com esta política. Mas, nem por isso, os desafios são menores ou que possam ser adiados. O relógio alerta que os municípios precisam sim correr para se enquadrar e diferentes setores também devem fazer suas partes. Esperando que o governo não ceda à pressão de prefeitos que tentam conseguir mais tempo. O prazo estabelecido foi o fim de 2015 para que tudo esteja de acordo com o acertado: o ciclo completo dos produtos voltando à sua origem, o fim dos lixões a céu aberto, a inserção social dos coletores (antes chamados de catadores) e um azeitado ciclo que evite desperdícios e descartes em locais inadequados. Só teremos cidades sustentáveis se conseguirmos seguir realmente o que a Lei define. Como diz o ditado popular, o combinado não sai caro. Falamos no ano passado sobre este tema em um artigo aqui neste portal.

Recente trabalho acaba de ser divulgado pelo Cempre (Centro Empresarial para Reciclagem): trata-se de um raio-X bem detalhado sobre os desdobramentos já ocorridos até agora. Este é o primeiro relatório preliminar de resultados do acordo setorial para logística reversa de embalagens, um plano de ação assinado por 22 associações e mais de 500 empresas para ampliar a capacidade do Brasil na destinação adequada das embalagens pós-consumo.

Os números são positivos, cumprindo e, em alguns casos, ultrapassando, já no meio deste ano, as metas definidas para o fim de 2015. Algumas cadeias produtivas estão mais avançadas do que outras.

De acordo com o relatório, entre janeiro de 2012 e junho de 2014, as empresas da coalizão instalaram, em 96 municípios, 836 Pontos de Entrega Voluntária (PEVs) ou “ecopontos”, locais estrategicamente definidos, de fácil acesso e grande fluxo de pessoas para depósito de material reciclável. O número apresentado ficou 29% acima da meta estipulada para o fim de 2015. O destaque é a região metropolitana de São Paulo, onde 670 PEVs estão instalados. Em Belo Horizonte e Manaus, o número de PEVs também subiu consideravelmente, de 5 para 14 e de 0 para 6, respectivamente.

Vale conferir o relatório nos detalhes. Algumas experiências são bem interessantes e já estão em curso. O setor de embalagens de suco e leite – as caixas cartonadas – desenvolveu antes mesmo da Lei ser sancionada a “Rota da Reciclagem”. Postos de coleta de pilhas e baterias também surgiram há muitos anos e hoje estão consolidados e produtos com maior valor agregado, como a lata de alumínio, já estão avançados nesta cadeia de volta à origem. Não por acaso, o Brasil é atualmente recordista na reciclagem do alumínio, com um índice de cerca de 92% segundo dados da ABAL (Associação Brasileira de Alumínio).

É claro que ainda há muito a ser feito e aí voltamos ao início do artigo sobre a angústia nossa de cada dia. Basta conferir o descaso de vários municípios que ainda não introduziram a coleta seletiva ou de grandes centros de consumo – como é o caso do setor de shopping center – que se dizem sustentáveis mas pouquíssimos tem realmente a seleção e coleta seletiva dos resíduos.

Alguns fizeram parcerias interessantes com cooperativas de coletores – ou catadores – e estão escoando parte de resíduos por ali, como latas, garrafas pet, etc. No entanto, o trabalho é grande e exige urgência nas decisões.

Para quem quiser se aprofundar no assunto, acaba de ser lançado o livro “Do lixo ao Oscar”, de Sebastião Santos, o Tião do filme “Lixo extraordinário”. De menino de infância pobre, que começou a trabalhar com a mãe aos 11 anos no Lixão de Gramacho, ele virou “celebridade” ao ser descoberto pelo artista plástico Vik Muniz, que produzia um trabalho com resíduos e acabou transformando este projeto em um filme.

Tião conta no livro sua vida, os momentos difíceis, como quando o pai morreu, e também as oportunidades que a vida lhe abriu. Por conta da participação no filme, o ex-catador chegou ao tapete vermelho da cerimônia do Oscar, deu diversas entrevistas e viveu uma transformação não só de sua vida, como de sua família e vários companheiros de estrada. Sempre humilde, não esqueceu as raízes: ele é uma fortíssima liderança neste tema e preside cooperativa na Baixada Fluminense, bem próxima de onde, ainda criança, existia um lixão.

Que a história viva de Tião – e tantos outros – nos inspire para continuarmos cobrando e participando desta luta para que a Lei seja cumprida do início ao fim.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

Tags: ,

Pin It

Notícias Relacionadas

Deixe uma resposta

« Anterior: Próximo »

Voltar ao topo