Estudo inédito traça raio X de riscos relativos a fatores ASG

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março 3, 2015

Estudo inédito traça raio X de riscos relativos a fatores ASG

Membros da Comissão de sustentabilidade da CNseg acompanhando a apresentação de Flávio Nogueira

Membros da Comissão de sustentabilidade da CNseg acompanhando a apresentação de Flávio Nogueira

Um dos principais argumentos para os céticos sobre os resultados da Sustentabilidade como vetor no planejamento estratégico costuma ser a falta de métricas. Pois um estudo inédito que acaba de ser concluído traz luz e promete provocar reflexões para o mercado segurador. Produzido pelo doutorando em Planejamento Ambiental pelo Programa de Planejamento Estratégico, PPE da COPPE/UFRJ, e engenheiro de Sistemas de Informação, professor e consultor Flávio Geraldo Nogueira, o trabalho acaba de ser apresentado para a Comissão de Sustentabilidade da CNseg na última sexta-feira, dia 27 de fevereiro.

O principal objetivo da pesquisa, explicou Flávio Nogueira, foi avaliar a evolução dos riscos relativos a fatores Ambientais, Sociais e de Governança – os chamados ASG – no mercado brasileiro. E, a partir deste acompanhamento, indicar sugestões que possam vir a ser aplicadas em prol do desenvolvimento sustentável. A base para o trabalho foi a metodologia já aplicada e divulgada pela UNEP FI (Programa das Nações Unidas para o Setor Financeiro) em 2009, mas o principal mérito do levantamento foi justamente adaptar e aplicar o que já era consagrado globalmente para a realidade brasileira.

“Fizemos consultas a diversos executivos e interlocutores relevantes do mercado segurador, incluindo alguns representantes de regulação, da Escola Nacional de Seguros e corretores”, explicou o autor do trabalho. Ao todo, foram enviadas 2.700 consultas, mas pelo critério estabelecido, só foram consideradas as que responderam e concluíram todas as perguntas. No total, responderam ao questionário 98 pessoas de 47 companhias de seguros, duas de resseguro, quatro corretores de seguros e nove de outros tipos de organizações.

À primeira vista, pode até parecer “pouco”, mas quem conhece a dificuldade de fechar questionários sobre sustentabilidade sabe muito bem o valor e representatividade do que foi coletado. O consultor destacou o peso destas respostas. “As empresas participantes da pesquisa emitiram mais de 90% dos prêmios de seguros em 2013”, frisou na sua apresentação.

O trabalho seguiu rígida e cuidadosa metodologia e chegou a provocar um certo olhar crítico dos orientadores de Nogueira na Coppe. Não é difícil de entender. O centro de estudo – tido como um dos mais conceituados do país, de renome mundial (de lá saíram vários professores agraciados com Prêmio Nobel pelo trabalho conjunto sobre o aquecimento global) – é conhecido por ser uma escola de engenheiros e cientistas. Permeia o segmento de energia, tem auxiliado com relevantes pesquisas sobre o aquecimento global e a questão hídrica, mas pendendo bem mais pela Engenharia e Ciências Exatas do que pelo lado dos Negócios. Isso também ajuda a assegurar ainda maior mérito para o trabalho.

A metodologia e os resultados foram exaustivamente testados e validados. Rodando planilhas, conferindo e checando resultados até a exaustão. “A boa notícia é que passaram no teste e foram considerados bons instrumentos de pesquisa”, apresentou, orgulhoso, Flávio Nogueira.

Outro ponto também é muito importante para entender a metodologia do estudo. As perguntas foram feitas a partir da percepção do mercado. Portanto, as respostas consideram o que o mercado avalia sobre o tema, tentando mensurar a crença da indústria nas Mudanças Climáticas Globais (MCG) e como as seguradoras estão se preparando para essas mudanças. E identifica riscos associados às MCG e sua relação com a subscrição hoje e no futuro.

“Os resultados não se referem ao fenômeno em si, mas à percepção do mercado”, frisou Nogueira. Assim, foi possível detectar não só avanços e ceticismos, mas também indicar a exata “temperatura” como em um termômetro do que é tido como boas práticas, mas se é realmente praticado ou não. Algo como o conhecido dito popular – “casa de ferreiro e espeto de pau ou de ferro”.

No quesito mudanças climáticas, por exemplo, foi possível avaliar se as seguradoras estão ou não executando práticas sustentáveis que reduzam o consumo de energia, por exemplo.

A pesquisa comprovou que as seguradoras incorporaram fatores ASG nas suas operações em níveis superiores ao progresso evolutivo dos riscos. E a percepção da indústria é que a indústria incorpora, efetivamente, fatores ASG nas aplicações financeiras.

Como explicou o autor da pesquisa, os profissionais do mercado creem na existência da mudança climática global por influência humana. “Os riscos climáticos já influenciam a subscrição hoje e influenciarão ainda mais em dez anos. As seguradoras já estão realizando mudanças em seus processos relacionados a riscos climáticos, envolvendo diferentes stakeholders”, explicou.

O trabalho também faz comparações por pilar da sustentabilidade – econômico, social e ambiental – com indicadores globais. “O Brasil está abaixo dos países desenvolvidos, mas acima dos em desenvolvimento, puxado pelo tema mudanças climáticas”, explicou o doutorando.

O trabalho é extenso e merece que se debruce sobre ele com o vagar necessário. Mas as conclusões apresentadas valem uma reflexão profunda de especialistas do mercado. Flávio Nogueira propõe que os mercados de seguros, de previdência privada, de capitalização e de saúde – por regulação obrigados a aplicar suas reservas técnicas – olhem com mais atenção para o desenvolvimento de negócios que contribuam para o desenvolvimento sustentável. “Práticas sustentáveis devem ser apoiadas”, frisou o autor do estudo, citando, como exemplo, o telhado verde e energia renovável.

Nogueira sugeriu também a existência de um “gap”, gerando oportunidades de novos produtos, como “coberturas sociais para riscos ASG, como a Fundação Gates tem feito na África” e também o desenvolvimento de pesquisas de avaliação e mitigação de riscos ASG em parceria com as universidades.

Adriana Boscov, presidente da Comissão de Sustentabilidade da CNseg, elogiou a qualidade dos resultados do trabalho, mas lembrou que será interessante apresentá-lo a integrantes de outras Comissões para confrontar os dados coletados e refletir sobre os próximos passos. “Especialistas em riscos de incêndio em grandes edifícios, por exemplo, detectaram que estruturas tidas como sustentáveis não são, necessariamente, as de menor risco. Precisamos cruzar informações e experiências”, frisou.

Confira abaixo a entrevista completa com Flávio Nogueira

flavio_nogueira_closeQuais os principais objetivos do estudo?

Avaliar a evolução dos riscos relativos a fatores Ambientais, Sociais e de Governança (ASG) no mercado brasileiro. Buscar uma relação entre a evolução desses riscos e a gestão de Sustentabilidade nas seguradoras. Identificar oportunidades para o desenvolvimento de produtos ligados a esses riscos. Avaliar a crença da indústria nas Mudanças Climáticas Globais (MCG) e como as seguradoras estão se preparando para essas mudanças. E identificar riscos associados às MCG e sua relação com a subscrição hoje e no futuro.

E quais foram as principais conclusões?

O nível do progresso evolutivo dos riscos ASG no Brasil foi inferior ao dos mercados desenvolvidos e superior aos em desenvolvimento (base UNEP FI 2009).  Existem diversas oportunidades para o desenvolvimento de novos produtos para riscos ASG, identificados e com materialidade financeira.   Existe uma relação positiva e significante entre o progresso evolutivo e as práticas de sustentabilidade das seguradoras.   As políticas de sustentabilidade em relação às operações, prestadores de serviço e investimentos apresentaram níveis distintos.   Os profissionais do mercado creem na existência da mudança climática global por influência humana.   Os riscos climáticos já influenciam a subscrição hoje e influenciarão ainda mais em dez anos. As seguradoras já estão realizando mudanças em seus processos relacionados a riscos climáticos, envolvendo diferentes stakeholders. Entre outras conclusões, ficou demonstrado que o instrumento de pesquisa é robusto e pode ser aplicado, de forma simplificada, para um monitoramento continuado da evolução dessas questões neste e em outros mercados.

No que se refere ao mercado, como foi avaliado seu comprometimento com a questão da sustentabilidade?

Desenvolvemos um questionário com base nos 12 fatores de sustentabilidade propostos pela UNEP FI em 2009. Porém, olhando para “dentro” das seguradoras, ou seja, nas operações, relações com prestadores de serviço e investimentos. Para cada um desses fatores foi feita uma afirmação e os participantes avaliaram por meio de uma escala likert de sete pontos, sendo um para “discordo completamente” e sete para “concordo plenamente”.

Por exemplo: para avaliar o progresso em relação fator ambiental mudança climática global foi perguntado: como o segurado gerencia os riscos associados às mudanças climáticas (por exemplo, adaptação de construções a vendavais, tempestades e outros eventos climáticos), incluindo a gestão de suas emissões de gases de efeito estufa.

Para avaliar a prática nas seguradoras perguntamos: a empresa/mercado onde trabalho possui políticas específicas para redução das emissões de GEE em suas operações; redução das emissões de GEE nos serviços dos seus parceiros e prestadores de serviço; para alocar uma parcela dos investimentos em negócios que mitiguem as MCG como projetos de energia eólica ou reflorestamento. Este modelo permitiu não só avaliar a prática nas seguradoras, como também buscar uma relação entre o progresso evolutivo e a prática nas seguradoras que demonstramos existir.

Que contribuições o estudo oferece ao mercado?

Inicialmente, oferece um material de estudo sobre o tema, suportado pela literatura mais recente, e dados representativos sobre o mercado nacional. Foi identificado um “gap” na evolução dos riscos ASG em relação aos países desenvolvidos e uma sinalização dos participantes de que existem vários grupos de produto para os quais os riscos apresentam materialidade financeira, porém ainda não são oferecidos produtos. Esses dados indicam oportunidades para o desenvolvimento de novos produtos e sua devida regulação.

O modelo proposto pela UNEP FI em 2009 se mostrou robusto para o mercado brasileiro e descobriu-se uma relação significante entre o progresso evolutivo e o desenvolvimento, ou comprometimento, dessas práticas nas seguradoras. Isso significa que as empresas podem utilizar esse instrumento não só para avaliar como seus clientes e prospects estão lidando com esses riscos, mas também se o seu desenvolvimento interno esta compatível.

Para usar uma imagem popular se o compararmos o segurador com um ferreiro em relação aos riscos ASG poderemos dizer se o espeto é de “pau” de ferro ou de aço. Na visão dos respondentes hoje esse espeto é de ferro.

Nessa avaliação surgiu também um “gap” entre a percepção dos participantes em relação à aplicação de parte das reservas em investimentos voltados para o desenvolvimento e a sua distribuição efetiva. Essa questão é longe de ser simples, mas, em minha opinião, deve ser debatida profundamente.

Finalmente, fizemos um estudo pioneiro na análise do desenvolvimento em relação aos riscos climáticos que indicou necessidade de maior divulgação e estudo deste tema pelo mercado bem como um envolvimento maior de outros stakeholders como pode ser visto no relatório.

>> Acesse aqui o documento completo da pesquisa

>> Acesse aqui a apresentação em Power Point

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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