A crise da água e o conceito de finitude

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abril 1, 2015

A crise da água e o conceito de finitude

As cenas exibidas nos últimos meses são uma mostra real de novos tempos. Não se trata de um fenômeno climático muito conhecido dos brasileiros de norte a sul do país, seja dos rigorosos períodos de seca no sertão nordestino ou do excesso de chuva nos rios amazônicos.

O que estamos vivenciando em todo o país são dias turbulentos de novos tempos. Se alguém chegou a pensar – algum dia – que o planeta era infinito, assim como seus recursos naturais, foi preciso, rapidamente rever este conceito. A água, como sempre foi, é um recurso finito. Assim como os minerais tão utilizados em diversos processos produtivos e outros tantos recursos. Como um dia indicou o poeta, com o sertão virando mar e o mar virando sertão.

O estudo chamado “Earth Over Shoot Day“, batizado no Brasil “O Dia que o Planeta Azul entrou no Vermelho” indicam que já vivemos além do limite do planeta, como se fosse estivéssemos vivendo no “cheque especial”. De acordo com os cálculos da GFN, nossa demanda por recursos ecológicos renováveis e serviços que eles provém é o equivalente hoje a 1,5 planeta. O cálculo é feito anualmente pela Global Footprint Network, uma organização internacional pela sustentabilidade, parceira global da Rede WWF. Desde 2000, a data surge cada vez mais cedo: de 1º de outubro em 2000 a 19 de agosto em 2014.

Notícias recentes mostram que o Ártico está emitindo sinal de SOS: foi o verão mais quente da história, com impacto direto na camada de gelo e nas geleiras. Nem mesmo aos mais céticos sobre o aquecimento global há como fingir que nada está acontecendo.

Sobre este tema, vale conferir a reedição de clássico coordenado pelo Professor José Eli da Veiga, Aquecimento Global – Frias Contendas Científicas, pela Editora Senac. O livro foi originalmente lançado em 2008 e agora reeditado. Joga luz sobre o debate, cada vez ainda mais atual. Professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e um dos adeptos da Economia Ecológica, José Eli é considerado um dos maiores especialistas no assunto.

Na questão da água, autoridades e especialistas têm procurado evitar temas impopulares, como o racionamento e o aumento de conta para punir quem gasta muito e premiações para os poupadores. Mas já ficou claro que nesta conta, não há almoço grátis, como o economista austríaco Friederick Hayek alertou e o também economista norte-americano, Milton Friedman popularizou.

Professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo Augusto José Pereira avalia que o próximo período de estiagem pode ocorrer já em 2019 e pode ser ainda mais impactante. Com base em levantamentos históricos do IAG, ele argumenta que desde 1930 sempre houve períodos de seca em São Paulo variando de quatro a 11 anos. Agora, nos resta planejar a gestão da água para os próximos anos sabendo que este cenário poderá se repetir, como avisa o especialista no tema Jetro Menezes em recente artigo.

Governos, empresas e a sociedade em geral precisa se atentar que o conceito de finitude está presente. Em entrevista exclusiva para esta colunista – da qual participaram também os jornalistas Dal Marcondes (Envolverde) e Lúcia Chayb (Eco 21) – a Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, alertou para as causas e as consequências da dramática crise de recursos hídricos.

Um trabalho prático e de fácil compreensão acaba de ser divulgado por técnicos da Fundação Grupo Boticário sobre mitos e verdades a respeito da crise hídrica. Em 11 pontos, o documento mostra dados e alguns pontos não tão verdadeiros sobre o cenário atual. Algumas informações realmente assustam como a constatação que o desperdício é muito elevado: estima-se hoje que em torno de um quarto da água tratada é perdida no trajeto entre as represas e as torneiras.

Finitos podem ser os recursos naturais, mas infinitas são as soluções e a criatividade humana. Se o homem souber administrar melhor os recursos já escassos será possível acreditar em uma convivência pacífica. Senão, alertam os especialistas, haverá guerras deflagradas pela escassez de água ou outros recursos. Antes disso, no entanto, esperamos o caminho das soluções.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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