Obesidade: questão de saúde

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abril 22, 2015

Obesidade: questão de saúde

Talvez a geração hoje na faixa de 50 anos tenha sido a última privilegiada que pode vivenciar no dia-a-dia experiências incríveis ao ar livre. Como subir em árvores, pular muros, brincar na rua despreocupadamente de uma infinidade de piques e corridas, peladas na praça, pular corda, elástico, etc. Os que vieram depois, já com a chegada do advento dos computadores e das modernidades tecnológicas não tiveram a mesma sorte.

Não é verdade que apenas o estilo de vida impulsionado pelos computadores tenha sido o único responsável por uma verdadeira “revolução” nos padrões de vida. Contribuíram também decisivamente para esta mudança o avanço das megacidades e a violência crescente obrigando os pais a evitarem deixar os filhos despreocupadamente nas ruas. Engarrafamentos quilométricos e um stress diário de atividades seguidas também ajudaram a impulsionar este cenário. Sem falar no aumento da participação de alimentações industrializadas, rápidas e de baixíssima qualidade no lugar de itens mais caseiros e saudáveis.

Uma recente pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde comprovou o que já percebíamos: a obesidade deixou de ser um problema localizado para tornar-se uma verdadeira epidemia nacional. O excesso de peso atinge 52,5% da população adulta do país. Essa taxa, nove anos atrás, era de 43% – o que representa um crescimento de 23% no período. O levantamento alerta também para outro fato ainda mais preocupante: 17,9% das pessoas com mais de 18 anos têm obesidade.

Não custa lembrar, é claro, que os quilos a mais na balança são fatores de risco para doenças crônicas, como as do coração, hipertensão e diabetes, que respondem por 72% dos óbitos no Brasil. Portanto, esta é, sem dúvida, uma questão de saúde. E passou a ser um tema essencial não só para os Governos e suas políticas públicas, mas também para empresas e a sociedade civil. As tradicionais pracinhas de bairro se transformaram em aliadas nesta luta contra a obesidade: várias cidades instalaram equipamentos relativamente simples que ajudam os moradores a praticarem exercícios ao ar livre.

Várias companhias também passaram a incluir planos de ação voluntários para incentivas reeducação alimentar e exercícios para funcionários já obesos ou no limite da obesidade.

Fabricantes de alimentos estão engajados em seguir novas regras – como redução de sódio – e também se envolver na causa. A queda no movimento de redes de fast-food é apenas um lado desta moeda que parece não ter apenas dois.

Tive o privilégio de conhecer e entrevistar, em 2008, logo no número 1 de nossa Plurale em revista a Dra. Zilda Arns Neumann, fundadora da Pastoral da Criança, incansável no combate à fome e desnutrição infantil, vitimada pelo terremoto no Haiti, em janeiro de 2010. Com a experiência de quem batia pé de um lado para outro neste Brasil continental, a médica sabia que não era só um combate à fome. Mas também à falta de saneamento, condições mínimas de higiene, atenção com as crianças e o “desmantelamento” de famílias. Dra. Zilda já alertava que o Brasil não poderia desperdiçar tantos alimentos e o que é mais surreal, se alimentar tão mal.

De acordo com recentes dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês), o rastro de desperdício de alimentos em escala global é da ordem de 1,3 bilhão de toneladas (excluindo peixes e frutos do mar), ocasionando, além de significativas perdas econômicas (US$ 750 bilhões por ano).

Reencontrei com um dos filhos da Dra. Zilda, o também médico, Nélson Arns Neumann, em evento no Rio de Janeiro, no qual a sua mãe – e outros brasileiros com trabalhos relevantes – era homenageada pelas Nações Unidas. A entrevista coincidiu com a data de 30 anos de trabalho da Pastoral da Criança: o médico para o drama não só da fome, como também da obesidade. “Hoje no Brasil há mais obesidade entre os pobres que entre os ricos. Em 40 anos, inverteu-se o padrão. Caminhamos rapidamente também para ter mais crianças obesas no Nordeste que no Sul do Brasil. Mas a prevenção da obesidade começa na gestação”, disse.

Quem viaja muito, nota não só diferentes conjuntos arquitetônicos, mas, principalmente, estilos de vida diversos. Em vários países desenvolvidos, como nos Estados Unidos, o drama da obesidade também chegou a índices alarmantes. Nas empresas americanas o número de obesos ultrapassa os 34%. Um estudo norte-americano concluiu que as empresas perdem US$ 1,8 mil por ano por falta de produtividade dos profissionais obesos. E até mesmo no Japão, onde aparentemente não há obesos (o índice mais recente indica que 3% da população está bem acima do peso ideal), o governo está em campanha para combater o problema e uma lei obriga que pessoas acima dos 40 anos passem por exame para medir a circunferência abdominal, medida que ajuda a identificar o excesso de peso.

O Brasil ainda pode ser considerado um país jovem e com grandes chances de acertar o passo. Movimentos consistentes na direção de práticas saudáveis – de alimentação balanceada e de exercícios físicos frequentes – ajudam a esperarmos melhora no quadro.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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