Muhamad Yunus, a voz de um Nobel a serviço do empreendedorismo e dos negócios sociais

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maio 13, 2015

Muhamad Yunus, a voz de um Nobel a serviço do empreendedorismo e dos negócios sociais

Cerca de 400 pessoas tiveram o privilégio de ouvir palestra do economista Muhamad Yunus, Nobel da Paz, no Rio de Janeiro, no último dia 2 de maio. O evento, organizado pela Yunus Negócios Sociais Brasil – centro de pesquisa e consultoria em negócios sociais liderado pelo professor que acaba de ser lançado no Brasil -, contou com o apoio de organizações não-governamentais e de empresas privadas.

Nascido em Bangladesh, Yunus ganhou fama global por seu trabalho transformador ao lançar, em 1976, o Grameen Bank. Foi laureado em 2006, não com o Prêmio de Economia, mas o Nobel da Paz, o único na História a conquistar tal feito. Fez jus à vontade de seu criador, Alfred Nobel, para quem o prêmio deveria distinguir “a pessoa que tivesse feito a maior ou melhor ação pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção de tratados de paz”.

Quem ainda não leu, recomendamos o best-seller “Banker to the poor” ou “O banqueiro dos pobres”, como foi chamado na tradução para o português. O livro conta a história de transformação de uma verdadeira legião de miseráveis em cidadãos empreendedores e com seus pequenos negócios. Este case foi apresentado no evento no Rio, do qual participamos. “Empreender é a palavra-chave”, explicou para os atentos ouvintes, o professor Yunus. A plateia era formada principalmente por jovens, engajados em causas relevantes e/ou empreendedores de negócios sociais novos.

O local foi perfeito para o diálogo – a sede da Ação da Cidadania, ONG fundada por Betinho (Herbert de Souza), criador do Balanço Social, defensor do Terceiro Setor e um dos principais combatentes da fome no Brasil.

“Estou feliz por ver principalmente jovens aqui”, disse Yunus, ao subir o pequeno tablado armado no meio do público, que o recebeu de pé sob aplausos. Simples, simpático e denso, muito denso, este poderia ser um bom perfil para o Nobel que roda o mundo expondo suas ideias e espalhando novos ideais.

Para os jovens, falou que ninguém precisa de emprego e sim de uma boa ideia para empreender. “Quem precisa de um emprego? As pessoas precisam empreender, ter uma boa ideia e levá-la adiante. E eu sempre digo isso.”

A plateia adorou o tom do discurso. Gente como universitário que está criando um aplicativo para celulares capaz de indicar qual o posto mais próximo de recolhimento de cada material para reciclagem. Ou a típica jovem da Zona Sul carioca que abriu um bufê de comidas naturais e agora deseja incluir também ação de geração de renda para mulheres de comunidades. “Estou certo que muitos aqui têm ótimas ideias já sendo desenvolvidas ou por serem desenvolvidas”, destacou Yunus, reforçando que é preciso fazer um plano de negócios e definir em que atividade cada um é melhor.

Perguntamos para o economista que tipo de atividades têm mais chances de serem bem-sucedidas nesta jornada de jovens empreendedores. “Qualquer uma. Pode ser moda, design, alimentação, tecnologia, etc. Há ótimas ideias por aqui, estou certo”, destacou.

Ao fim da palestra houve uma roda de diálogo com a participação de alguns convidados. Um economista questionou como avançar na direção da nova economia, se o Estado – em suas diferentes esferas – tem travado e não ajuda. O palestrante frisou que as soluções para a sociedade “devem ser simples, sem ser simplórias”, lamentou que as autoridades muitas vezes não saibam como resolver os problemas simplesmente por estarem distante do povo e seu dia-a-dia e defendeu que as comunidades se envolvam mais em ações coletivas.

O economista contou que o Grameen Bank concedeu microcrédito para milhares de moradores de baixa renda de Bangladesh, principalmente mulheres. “95% das clientes do Banco Grammen são mulheres. A maioria destas mulheres (85%) vinha da extrema pobreza, morava na rua ou em barracas. Hoje elas têm suas casas e trabalham em suas áreas de negócios. Ajudamos a mudar esta realidade.”

Ao contrário do que, na época, muitos banqueiros e financistas temiam – a inadimplência e a bancarrota do projeto – as mulheres foram excelentes clientes, pagando em dia o que deviam. A ideia se retroalimentou e mais e mais pessoas puderem ser beneficiadas. Yunus reforçou a força de sua criação: não um negócio por si só, mas um negócio com cunho social. De acordo com o que defende Yunus, negócios sociais são empresas que funcionam conforme a lógica de mercado, são autossuficientes financeiramente, mas têm como principal meta causar impacto social. O exemplo do iogurte reforçado com ferro, criado especialmente pela Danone junto com Yunus para a população mais pobre de Bangladesh a preço acessível, transformou-se em um exemplo emblemático de como é possível sim aliar lucro com o objetivo de redução de distorções socioeconômicas. “Precisávamos combater a fome e este caso mostrou-se possível”, citou.

Na palestra, o economista explicou que a sua ideia não pode ser confundida com a filantropia tradicional. “O negócio social é bem diferente da filantropia tradicional. Na caridade, você doa e este dinheiro só tem uma mão, não volta. No conceito de negócio social o dinheiro tem vida ilimitada. Pode ser reinvestido e é possível se fazer um ótimo uso do dinheiro.”

Este tipo de cenário pode se encaixar bem para os esforços do mercado segurador para o segmento de microsseguros. Com mais empreendedores crescendo e fechando negócios, a economia se realimenta. E a atividade seguradora tem tudo, sem dúvida, para ser inserida neste quadro.

Uma palestra realmente impactante. Ao fim, o Nobel foi ovacionado como estrela pop. Não há dúvida: Yunus é mesmo uma celebridade de um movimento que parece estar apenas engatinhando. 

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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