Fórum das Águas 2015, cidades sustentáveis e seus desafios

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novembro 12, 2015

Fórum das Águas 2015, cidades sustentáveis e seus desafios

O tema água é hoje, sem dúvida, prioritário. Não por acaso, recente pesquisa junto às seguradoras – ouvindo 20 empresas, representando cerca de 80% dos prêmios diretos arrecadados pelo mercado segurador em 2014 – mostrou que a esmagadora maioria (95%) já desenvolve campanhas de engajamento para economia de água. Outra conclusão é ainda mais categórica: todas implementaram sistemas ou já instalaram equipamentos de controle e/ou redução do consumo em suas instalações.

Especialistas do Brasil e do exterior estiveram reunidos ao longo de três dias em Brumadinho, Minas Gerais, comprovando que este é, realmente, um diálogo urgente. O local não poderia ser mais apropriado: o Teatro de Inhotim, museu a céu aberto que tanto se aproxima da natureza, localizado no município de Brumadinho, berço também de uma das principais bacias que abastece não tão somente os municípios da região, mas também a grande Belo Horizonte, responsável por 70% do abastecimento da capital mineira.

Este foi o terceiro ano da realização do evento pelo Consórcio Intermunicipal da Bacia Hidrográfica do Rio Paraopeba (Cibapar), desta vez com foco especialmente nas cidades sustentáveis. “Não tenho dúvidas que esse fórum é de proveito e queremos que não acabe, para criar esse debate. É a sustentabilidade que vai garantir um desenvolvimento econômico e social inclusivo para as próximas gerações Trouxemos profissionais de vários países para aprofundar o debate e para termos novas ideias para as cidades e comunidades para enfrentarem e mudarem esse panorama de crise hídrica”, afirmou Breno Carone, presidente do Cibapar.

O evento seguiu bem a dinâmica do local para o global e do global para o local. Um dos principais convidados foi o Professor Albert Appleton, ex-Comissário do Departamento de Proteção Ambiental (DEP) e diretor do Sistema de Água e de Esgoto da Prefeitura de Nova York. Ele contou que em sua gestão, nos anos 90, começou trabalho intenso rastreando não só o desperdício, mas também procurando preservar as nascentes de água que abastecem a metrópole, pagando para os agricultores pelos serviços ambientais e também trocando descargas por outras mais econômicas na cidade. “Era preciso ter todos envolvidos nesta conscientização ou Nova York sofreria de falta de água”, lembra. Appleton, hoje consultor em sustentabilidade e serviços ecossistêmicos, lembrou que todas as práticas geraram uma economia de bilhões de dólares. A demanda do município crescia 2% ao ano, observou Appleton, e a solução tradicional seria construir mais reservatórios, o que custaria de U$ 2 bilhões a U$ 5 bilhões aos cofres públicos. “Decidimos então ousar, implementar um projeto de racionalização do uso da água que os especialistas consideravam impraticável, inocente, mas que deu certo”, resumiu o consultor.

Foram recuperadas áreas de nascentes nas montanhas Catskill, que abastecem em grande parte a cidade de Nova York. Lá, a água começava a ser poluída com fertilizantes e dejetos da pecuária, além da derrubada da vegetação. “Quando disse que precisaria convencer os proprietários a mudar sua maneira de trabalhar, acharam que era coisa de quem abraça árvores”, relata o especialista.

Cidades sustentáveis – De Portugal vieram dois palestrantes – Luiz Catarino, da consultoria Intermoney, que falou sobre cidades sustentáveis – e o arquiteto Pedro Barata, focando sua palestra em preciclagem, um conceito ainda pouco estudado no Brasil. “Podemos colocar a arquitetura a serviço da água e realizar projetos que têm menos impacto ao meio ambiente. Os planejamentos devem ser feitos com base na praticidade, sustentabilidade, harmonia e na valorização do deste recurso”, assegurou Barata. Para Catarino quando se fala sobre cidades sustentáveis é preciso conversar sobre o futuro, em uma linguagem universal. Através de sua experiência nos Estados Unidos e Europa os projetos são adaptáveis à realidade específica de cada região. “Conhecendo a realidade mineira acho possível o desenvolvimento e a aplicação de projetos nesses locais”, afirmou demonstrando modelos de cidades sustentáveis.

O Fórum também reuniu especialistas brasileiros no assunto, como o cientista político Sérgio Abranches (editor do Portal Ecopolítica e comentarista da CBN) e o economista Sérgio Besserman, presidente do Instituto Pereira Passos e também comentarista da CBN. De acordo com Abranches, o Brasil se transformou na no país que menos se discute as questões fundamentais políticas da sociedade. “A questão da água, hoje, não tem transparência alguma. Há um escamoteamento sistemático das autoridades acerca dos reservatórios de água. São situações críticas que não são tratadas com veracidade com a sociedade brasileira. Quando deveríamos, na verdade, discutir seriamente o problema gravíssimo do abastecimento de água das principais cidades brasileiras. E a participação da população é essencial para as mudanças. Segundo Abranches, não se trata de uma crise eventual, e sim de uma situação que saiu do controle em consequência de ações nocivas ao ambiente.
Sobre o colapso hídrico vivido atualmente em boa parte do país, o economista Sérgio Besserman observou que quase metade da umidade do Sudeste vem da Amazônia, através dos chamados rios voadores, o que reforça a importância de se preservar a floresta, ao invés de derrubá-la.

O cineasta André D’Elia, diretor do filme “Lei da Água- Novo Código Florestal“, apresentou o documentário que trata a importância das florestas para a conservação dos recursos hídricos no Brasil, e problematiza o impacto do novo Código Florestal, aprovado pelo no Congresso em 2012, nesse ecossistema e na vida dos brasileiros.

Élbia Ganon, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (AbeEólica), enfatizou a necessidade de se investir em fontes renováveis de energia. “Cerca de 65% da produção de energia elétrica vem das bacias hidrográficas e dos grandes reservatórios. Hoje, estamos vivendo um momento de escassez. Por isso, energia eólica vem ganhando fôlego”.

Preservar nascentes – Em coro, a maioria dos palestrantes insistiu que é bem mais barato e eficiente preservar nascentes do que qualquer outra ação depois, quando a crise hídrica já estiver instalada. Ação coletiva e ganho de escala de boas práticas também foi defendida por Gilberto Tiepolo, da ONG TNC-Brasil. “Só existe essa forma de avançar”, acredita. Ele calcula que sem mudança na política do setor, em 16 anos a demanda por água irá superar a oferta em 40%. “A crise já faz parte da realidade brasileira. E a responsabilidade é do cidadão, de empresas e de governos”, defende.
A sociedade civil foi representada por ambientalistas, integrantes dos Comitês de Bacias e diversos estudantes da região. O evento foi encerrado com coral de crianças de escola pública do município de Brumadinho e contou com a participação especial da atriz Cléo Pires, que, para quem não sabe, é ativista engajada na causa ambiental. Ela é “embaixadora” do projeto “Águas nas Escolas”, programa socioambiental de conscientização do uso de recursos hídricos que está sendo implantado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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