COP 21: Paris no centro das atenções

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novembro 30, 2015

COP 21: Paris no centro das atenções

Paris, mundialmente conhecida por ser a capital da liberdade, dos princípios republicanos, das artes e do amor viveu – e ainda vive – dias de medo. Após os atentados recentes terroristas, ocorridos em novembro nos quais morreram 130 pessoas, a capital parisiense precisou mudar sua rotina, a população precisou achar forças para continuar e esta semana será mais uma etapa importantíssima neste desafio de lutar contra as forçar do terror.

A partir desta segunda-feira, dia 30 de novembro, começa oficialmente a 21ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) para tratar do clima – ou apenas COP 21 – que seguirá em Paris até o dia 11 de dezembro. Sob um fortíssimo esquema de segurança, a discussão sobre o futuro da Terra desta vez está centrada na redução das emissões de gases do efeito estufa por todos os países, para conter o aumento da temperatura na Terra. Esta deverá ser a maior conferência do clima da história as Nações Unidas.

Ao todo, 150 chefes de estado se reunirão em Paris, inclusive a presidente Dilma Rousseff. Por conta da segurança, o governo francês proibiu manifestações nas ruas, como destacou o primeiro-ministro francês, Manuel Valls. No entanto, nada promete tirar a relevância do evento. Esta será a chance não só para dialogar seriamente sobre o clima, mas também sobre os desdobramentos dos debates sobre os rumos do planeta nos próximos anos. Ao todo, serão 40 mil participantes.

A França, e especialmente Paris será a capital do mundo: um mundo estupefato com os rumos dos acontecimentos, mas não imobilizado e acuado. Vários especialistas e consultores de diferentes países já demonstram que todo o cenário pode – quiçá – ser o “combustível’ para alertar os líderes sobre a urgência da crise climática vivida e ainda por se apresentar. Michael Gerard, professor de Direito Ambiental da Universidade de Columbia, participa da conferência e destacou a importância de não adiá-la. “Hoje, o terrorismo é a maior ameaça à humidade, mas a longo prazo é o aquecimento do planeta, que pode expulsar milhões de pessoas das áreas afetadas e assim incentivar mais atos terroristas”, disse.

Se tudo der certo – e vamos esperar que sim – o acordo a ser assinado em Paris criará uma política comum de redução na emissão de gases do efeito estufa que impeça um acréscimo superior a 2 graus Celsius na temperatura média de superfície, em relação aos níveis pré-Revolução Industrial. A ONU alerta que esse é o limite considerado “perigoso”. O ponto de partida para o acordo serão as promessas de desaceleração na emissão de gases-estufa que países fizeram no último ano. Chamadas de INDCs (Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas), elas indicam o que países estão dispostos a fazer até 2030.

Não será fácil, nem tem sido fácil. COPs anteriores e reuniões preliminares para esta rodada já demonstraram que há muitos interesses em jogo e as negociações emperram. Recente estudo divulgado pela ONU mostra que as catástrofes naturais, cada vez mais frequentes, mataram cerca de 600 mil pessoas em 20 anos. Desde 1995, “as catástrofes meteorológicas mataram 606 mil pessoas, média de 30 mil por ano, deixando mais de 4,1 bilhões de feridos, desabrigados ou necessitados de ajuda emergencial”, indicou um relatório do Gabinete da ONU para Redução dos Riscos de Catástrofes (UNISDR). A maioria das mortes (89%) ocorreu em países mais pobres e causou perdas financeiras avaliadas em 1,8 bilhões de euros.

Por estes dados e tantos outros, a conferência do clima de Paris é considerada a rodada mais importante de todas até então. Com o caráter de urgência, pela primeira vez a dinâmica da COP21 será diferente de todas as outras. Antes, na primeira semana de negociações, os diplomatas eram os responsáveis pelas discussões, sendo que os ministros e chefes de estado participavam da segunda semana para as tomadas de decisões. Agora, esses chefes de estado participarão da semana inicial, com o objetivo de acelerar as negociações. Além disso, as metas dos 146 países que enviaram suas pretensões de redução até dia 1º de outubro (prazo máximo para o envio), representam 86% das emissões de carbono do mundo, realidade que nunca tinha acontecido em nenhuma outra COP.

“Não é difícil imaginar esse cenário visto que as mudanças climáticas já estão sendo sentidas em diversas partes do mundo, com secas e ondas de calor severas, chuvas fortíssimas e duradouras, furacões e outros fenômenos climáticos extremos”, disse à esta coluna, antes de embarcar para Paris, André Ferretti, gerente de estratégias de conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, uma das instituições que fazem parte do Observatório do Clima – rede de ONGs e movimentos sociais que atuam na agenda climática brasileira. Nesse contexto, observou, até mesmo representantes de países que historicamente não se comprometiam com metas de redução de Gases de Efeito Estufa – como Estados Unidos e China, estão agindo mais efetivamente, anunciando seus objetivos para os próximos anos.

O Brasil tem – e sempre teve e terá – um papel decisivo nestas rodadas. Não por acaso. Somos a sétima potência mundial, detemos cerca de 20% biodiversidade do planeta e está a maior parte em território brasileiro o que é considerado o maior “pulmão” do mundo, a Amazônia. Não é só. Tecnologias genuinamente nacionais – como o etanol de segunda geração, o biodiesel e a biomassa – estão fazendo com que tenhamos destaque no cenário internacional. “Mais do que atuar apenas para reduzir as emissões, precisamos caminhar para uma sociedade descarbonizada investindo em fontes renováveis de energia, as quais temos em abundância, gerando um diferencial competitivo para o Brasil na economia do século 21 e contribuindo com a melhoria da qualidade de vida da população brasileira e mundial”, ressaltou André Ferretti.

Porém, destacamos a necessidade de se olhar com lupa as notícias recentes sobre o meio ambiente no Brasil. Infelizmente, o desmatamento voltou a subir na Amazônia Legal, como confirmou a Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Desta vez, o aumento da taxa anual de desmatamento – referente ao período agosto de 2014 a julho de 2015 , foi de 5.831 km², 16 % maior que o período anterior, segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE). O resultado pode prejudicar as metas já pouco ambiciosas do governo brasileiro para a redução do desmatamento no bioma.

A área total desmatada equivale a 753 mil campos de futebol. Os estados do Pará e Mato Grosso foram, mais uma vez, os que mais desmataram em área total. Mas os estados do Amazonas, Rondônia e Mato Grosso tiveram os maiores aumentos em relação ao ano anterior (54%, 41% e 40 % respectivamente). Dentre as causas apontadas pela ministra, estão a expansão da pecuária (principal causa), agricultura e corte seletivo. Outro detalhe preocupante é que o desmatamento em grandes áreas voltou a ocorrer, seguindo o mesmo padrão de quando as taxas eram altíssimas, há dez anos. Em novembro também foi o mês do acidente com a mineradora Samarco, em Mariana (MG), que deixou mortes, 500 atingidos e atingiu o Rio Doce, chegando ao mar, no litoral do Espírito Santo. As controladoras da mineradora – a Vale e a BHP Biliton – estão sentindo também os efeitos da crise: a Vale não foi mais incluída no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBovespa de 2016.

Os líderes terão muito a dialogar na COP-21. Direto de Paris, o cientista social e jornalista Sergio Abranches, editor do Portal Ecopolítica e comentarista da CBN – experiente observador do tema – comentou sobre otimismo, misturado com o que chamou de expectativas sóbrias. “A COP21 começa precedida por um otimismo, digamos, realista e por expectativas bem mais sóbrias e concretas do que aconteceu com a COP15, em Copenhague”, resumiu.

Vamos acompanhar o desdobramento da Conferência. E torcer que seja possível chegar ao Acordo.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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