20 anos de Investimento Social Privado no Brasil

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abril 11, 2016

20 anos de Investimento Social Privado no Brasil

Educação, esportes, voluntariado, cursos profissionalizantes, etc. Estes são apenas alguns dos nichos de atuação social que empresas de diferentes portes – inclusive seguradoras – atuaram no Brasil nos últimos 20 anos. Um relevante estudo – coordenado pelo Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE) e divulgado recentemente-  apresenta um raio X dos investimentos sociais privados neste período.

Primeiro, uma explicação para quem ainda não conheça o trabalho e a relevância do GIFE. A Rede GIFE é marcada pela diversidade de seus investidores e reúne hoje 137 associados que, somados, investem por volta de R$ 2,4 bilhões por ano na área social, operando projetos próprios ou viabilizando os de terceiros. É uma instituição sem fins lucrativos, referência no Brasil em temas relacionados ao investimento social privado, cujo principal papel é articular organizações privadas que apoiam causas de interesse público e gerar conhecimento sobre o campo. Um vídeo – com depoimentos de quem trabalhou e viveu esta linha do tempo – resume bem a trajetória de 20 anos do investimento social privado no Brasil. Compartilhamos também na TV Plurale alguns vídeos produzidos ao longo do evento.

O Censo GIFE 2015 traz várias informações relevantes para quem atua ou estuda o tema. De acordo com a pesquisa, realizada com 113 organizações associadas ao GIFE, que investiram R$ 3 bilhões na área social em 2014, 89% das organizações afirmam possuir iniciativas alinhadas com políticas públicas. Não é só.

O trabalho mostra ainda que a principal forma de alinhamento das organizações às políticas públicas, apontada por 64% dos respondentes, se dá por meio de projetos em que os beneficiários são segmentos da população também atendidos por políticas públicas. Além disso, para 58% da amostra, seus programas influenciam ou apoiam a construção de políticas públicas; 44% afirmam que os projetos são concebidos em parceria com a gestão pública; 35% acreditam que o alinhamento ocorre pelo reconhecimento público de programas ou tecnologias sociais executadas pelos investidores; e 23% responderam que os programas desenvolvidos são adotados por governos.

Mas, na prática, o que fazem, como trabalham estas organizações? O que pensam seus gestores? O que é a cultura de doação? Como tem sido desenvolvido este trabalho em outros países? Como avançar na direção dos novos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)? Estas e muitas outras perguntas foram debatidas do 9º Congresso GIFE cujo o tema central foi “O sentido público do investimento social privado”.

Durante o Congresso, o GIFE apresentou a plataforma Estratégia ODS, lançada em setembro de 2015. Trata-se de uma coalizão de organizações com atuação reconhecida no Brasil, que representam a sociedade civil, o setor privado e os governos locais. O objetivo é mobilizar, discutir e propor meios de implementação para os ODS. “Os investidores sociais são atores-chave em muitos territórios, especialmente no que tange a aproximações possíveis entre as empresas, os governos locais e a sociedade. Estamos apostando nessa visão”, destacou Ana Letícia Silva, gerente de articulação do GIFE.

Interessante também ver como o leque se abre e o assunto desperta a curiosidade do público em geral. Em paralelo ao evento fechado para convidados, também foi realizada – pela primeira vez – a Semana do Investimento Social Privado. Ao longo dos cinco dias, foram realizadas diversas iniciativas gratuitas e espalhadas pelo Brasil, com a curadoria do GIFE.

Cerca de 800 gestores de fundações e organizações de investimento social privado, formadores de opinião e consultores estiveram reunidos ao longo de três dias intensos de muito diálogo e construção de conhecimento em rede. Vários especialistas de diferentes países estiveram em São Paulo para o evento. Um dos principais convidados foi o presidente da Fundação Ford, Darren Walker, considerado um “craque” no tema.

Em sua palestra, o norte-americano foi bem claro. Segundo Walker, “para alcançarmos um mundo mais justo e pacífico, é preciso enfrentarmos ainda três grandes barreiras: as mudanças climáticas, o crescimento da injustiça e as desigualdades”. A Fundação Ford é um verdadeiro ícone nesta área: é considerada uma das maiores fundações do mundo criada há 78 anos, sendo que está há 53 no Brasil – definiu justamente o combate às desigualdades como sua nova estratégia de atuação nos 10 escritórios ao redor do mundo, instalados na Ásia, África e América Latina. Segundo Darren, para alcançarmos uma democracia forte é necessária uma sociedade civil vibrante e resistente, que seja capaz de enfrentar e reagir frente às questões emergentes urgentes. Por isso, é essencial o apoio dos investidores sociais direcionando recursos para o fortalecimento das organizações da sociedade civil.

Os exemplos e referências não vieram só de palestrantes internacionais. Cases brasileiros também despertaram a atenção. Como o de empresa que investiu R$ 12 milhões em um grande projeto na Amazônia e também apoiou vários investimentos em Educação, Saúde e Sustentabilidade. O case baseou-se na construção de uma fábrica de cimento, com produção de 1,5 milhões de toneladas/ano, absorvendo 300 colaboradores, em uma região pobre, que tem IDH de 0,57 e renda per capita familiar de R$ 81,30.

Inovação foi outro assunto muito debatido ao longo dos três dias. De acordo com alguns palestrantes, os investimentos governamentais e filantrópicos não são suficientes para gerar a inovação social necessária para apresentar soluções à altura dos desafios e problemas que a humanidade vive hoje. De acordo com estes especialistas, é necessário atrair e considerar iniciativas de capital que tragam em sua estratégia o resultado nos negócios, com lucratividade e transformação social.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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