Açúcar e sal: vilões ou aliados de uma alimentação balanceada?

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julho 18, 2016

Açúcar e sal: vilões ou aliados de uma alimentação balanceada?

Se, na História, o açúcar e o sal chegaram a ser “moedas” – lembrando que a palavra salário deriva do sal – em tempos modernos, os dois ingredientes essenciais na alimentação passaram a ser considerados, quando não controlados, como verdadeiros vilões da saúde.

O assunto ganhou manchetes e tem provocado polêmica não só no exterior, mas também no Brasil. Diante de estatísticas sobre problemas provocados por excesso de sódio, gordura trans e açúcar em comidas prontas e processadas, o Ministério da Saúde assinou termo de compromisso com associações de fabricantes destes alimentos para que fosse buscada a redução das quantidades de açúcar, gorduras e sódio nos alimentos processados.

O assunto é mesmo urgente. De acordo com a Pesquisa de Orçamentos Familiares, há consumo excessivo de açúcares pela população brasileira (61%) devido à elevada ingestão de sucos, refrigerantes e refrescos, açucarados, aliada ao baixo consumo de frutas e hortaliças. Não é difícil de acompanhar o cenário atual: com a vida moderna tão corrida, raramente as famílias têm tempo de cuidar de alimentações balanceadas e saudáveis. Na corrida do dia-a-dia, surgem como “salvadores” uma infinidade de itens prontos nas prateleiras dos mercados.

No caso do sal, está em curso uma nova agenda relacionada ao sódio, com o objetivo de contribuir para os esforços de redução do consumo de sódio da população brasileira a menos de 2.000 mmg/pessoa/dia até 2020. A primeira etapa envolveu macarrão instantâneo, pão de forma e bisnaguinha. A segunda, bolos, snacks (batata-palha e salgadinhos de milho), maioneses e biscoitos. O acordo prevê mais uma etapa envolvendo produtos embutidos. Estima-se que 24,9% da população brasileira têm hipertensão. Os dados são resultado de uma pesquisa feita pela Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2015. Desde o início do acordo até o final de 2015, mais de 14,9 toneladas de sódio já foram retirados dos produtos processados. A meta voluntária é, que, até 2020, 28,5 toneladas sejam retiradas da alimentação dos brasileiros.

O Ministério da Saúde também negocia com a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA) para diminuir cada vez mais a quantidade de açúcar nos produtos. A meta é reduzir 40% do índice nas calorias dos brasileiros. Atualmente, o brasileiro consome em média 16,4% de açúcar na alimentação, que corresponde a 6,4% a mais do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

O consumo de gordura trans também tem sido monitorado. A pressão de especialistas e da opinião pública foi tão grande que diversos fabricantes se apressaram a banir de vez este ingrediente tão nocivo à saúde. Basta conferir nos rótulos que diversos produtos anunciam a ausência deste tipo de ingrediente. A questão torna-se ainda mais dramática se considerarmos a ingestão deste tipo de gordura por alimentos dirigidos especialmente para crianças e adolescentes.

Sem refrigerantes nas escolasRecentemente, três megafabricantes de refrigerantes – marcas globais que são concorrentes diretas – anunciaram uma coalizão em prol da saúde: não irão mais vender diretamente os produtos para cantinas de escolas no Brasil. A principal mudança é que as empresas venderão às escolas para crianças de até 12 anos (ou com maioria de crianças de até essa idade) apenas água mineral, suco com 100% de fruta, água de coco e bebidas lácteas que atendam a critérios nutricionais específicos. A política valerá para as cantinas que compram diretamente das fabricantes e de seus distribuidores. Em relação às demais, aquelas que se abastecem em outros pontos de venda (supermercados, redes de atacados e adegas, por exemplo), haverá uma ação de sensibilização desses comerciantes por meio da qual todos serão convidados a se unir à iniciativa.

Diante de um intenso trabalho de ONGs – como o Instituto Alana – e também da pressão popular, as companhias decidiram se unir em uma decisão inédita que, em um primeiro instante, atinge diretamente as receitas. Mas, por outro lado, tem tudo para consolidar estes grupos como alinhados com a causa a favor da vida saudável para crianças e adolescentes.

Tramita na Câmara dos Deputados há mais de dez anos o Projeto de Lei 5921, do deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB – PR), que pretende proibir a publicidade destinada a vender produtos infantis. Entidades de defesa dos anunciantes e das agências de publicidade já se manifestaram contrários. O tema está longe de chegar a um consenso.

No caso do açúcar, uma nova campanha promovida pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA)  – chamada Doce Equilíbrio – tem procurado mostrar que este insumo, quando consumido em doses certas e, desde que aliado à práticas saudáveis de exercícios, pode fazer bem à saúde. A campanha visa equilibrar os debates referentes ao açúcar, apresentando argumentos científicos, estudos clínicos, pesquisas comportamentais, bem como receitas e boas histórias associadas ao ingrediente. Para embasar seus conteúdos, a campanha conta com o apoio de um comitê multidisciplinar, com especialistas de importantes instituições brasileiras. Os membros da equipe são a nutricionista Marcia Daskal, o cardiologista Dr. Daniel Magnoni, o endocrinologista Dr. Marcio Mancini, o preparador físico Marcio Atalla, a pediatra Fernanda Ceragioli e o sociólogo Raul Lody.

“A glicose é a principal fonte de energia do organismo, inclusive do nosso cérebro. O açúcar é um carboidrato simples e a falta dele pode deixar as pessoas mais agressivas e ansiosas. Também é necessário para o bom funcionamento do Sistema Nervoso Central, já que quando em falta pode causar sonolência e irritabilidade. Alimentos não devem ser considerados “vilões” da saúde. A complicação não está no que se ingere, mas na quantidade”, reforça o cardiologista Daniel Magnoni.

A campanha tem patrocinado várias pesquisas sobre o tema. Uma delas avalia a ingestão de açúcar e as atividades físicas. Resultados da pesquisa “Consumo equilibrado: uma nova percepção sobre o açúcar”realizada pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia no âmbito da Campanha Doce Equilíbrio, apontam que dos entrevistados praticantes de atividade física, 67% consomem açúcar, sendo que a maioria (73%) está com peso adequado.

De acordo com o preparador físico Marcio Atalla, o dado está alinhado com as recomendações das principais organizações de saúde. “Manter hábitos saudáveis significa ter uma alimentação adequada e fazer exercícios regularmente. Precisamos de todos os nutrientes para o bom funcionamento do organismo e o açúcar faz parte deste contexto. No caso dos esportistas, por exemplo, o ingrediente é essencial como fonte de energia”, explica.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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