Superação, a maior lição dos Jogos

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setembro 13, 2016

Superação, a maior lição dos Jogos

Não são poucos os obstáculos enfrentados por cerca de 24% da população brasileira que têm algum tipo de deficiência, de acordo com estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), baseadas no Censo de 2010. Um universo de 45 milhões de pessoas. Faltam acessibilidade na maior parte das cidades – mesmo as metrópolis, ainda mais oportunidades de emprego, muitos enfrentam preconceitos e uma série de dificuldades. A despeito de todas as adversidades, os 4.331 atletas (de 164 países) dos Jogos Paralímpicos 2016, pela primeira vez realizados no Brasil, estão dando uma verdadeira lição de vida para todos nós.

Como não se emocionar com as vitórias destes campeões em diferentes modalidades esportivas? Quem não vibrou com as conquistas de medalhas dos nadadores Daniel Dias e Clodoaldo Silva nas piscinas? Quem não se arrepiar com a garra de nossos representantes no Atletismo? São apenas alguns exemplos da garra, superação e determinação destes heróis paratletas.

Daniel Dias conquistou neste domingo (11) a 19ª medalha Paralímpica de sua carreira. A prata ganha nos 100m peito SB4 aproxima o nadador de um recorde histórico da modalidade. O australiano Matthew Cowdrey conquistou 23 medalhas entre Atenas 2004 e Londres 2012 e é o maior medalhista da natação na história dos Jogos, mas não compete no Rio 2016. E as incríveis histórias não são apenas dos paratletas. Um jovem estudante alemão veio ao Brasil para cobrir os jogos Rio 2016 dentro de projeto para aspirantes ao Jornalismo: aos 19 anos, David Hock, nasceu com uma má formação congênita: não tem o braço esquerdo e conta apenas com três dedos na mão direita, que não ultrapassa a altura do ombro. Ele tira os tênis e escreve suas matérias no computador com os pés.

O público tem acompanhado com grande interesse as disputas: no último sábado, dia 10 de setembro, o Parque Olímpico da Barra da Tijuca, onde muitas disputas estão sendo realizadas, bateu recorde de público, com 157 mil pessoas. E, novamente, no domingo, dia 11, foi mais uma marca de excelente audiência. São famílias inteiras que levam seus filhos e mostram que é possível – e urgente – ter uma sociedade integrada, inclusiva, capaz de aceitar todos os seus indivíduos, independente se tenham ou alguma deficiência.

Em mensagem, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon destacou que tanto as Nações Unidas quanto o Movimento Paralímpíco possuem objetivos comuns: igualdade, dignidade, inclusão e respeito. “Os atletas paralímpicos são agentes da mudança e modelos de comportamento. Eles representam coragem e inspiração para todos nós. Com o Rio de Janeiro recebendo os primeiros Jogos Paralímpicos da América do Sul, temos uma tremenda oportunidade de inspirar conscientização e positivas mudanças sociais no continente”, afirmou.

Ao todo, são 11 dias de competições, na disputa de 28 modalidades paralímpicas : 528 provas valerão medalhas: 225 femininas, 265 masculinas e 38 mistas. Estivemos na Cerimônia de Abertura das Paralimpíadas, no Maracanã, no último dia 7 de setembro. Um show não só de música, apresentações e cultura, mas, principalmente, inspiração ímpar para repensarmos que sociedade temos e qual desejamos ter. A equipe técnica – liderada pelo designer Fred Gelli, o artista plástico Vik Muniz e o escritor Marcelo Rubens Paiva – programou várias surpresas. Como o show de samba no pé da atleta biambutada, Amy Purdy, e a descida em pista íngreme, em cadeira de rodas do atleta de esportes radicais, o paratleta Aaaron Whelez. Não foi só. Estavam lá a marca da garra, superação e determinação desta gente aguerrida que não se intimida diante do primeiro obstáculo. E como há obstáculos.

A chuva caiu forte já quase no fim da cerimônia, preocupando os organizadores. Foi emocionante ver a primeira paratleta brasileira medalhista em Jogos Paralímpicos, Márcia Malsar, deixar a tocha cair e recusar a ajuda de produtores. Sozinha, levantou-se, pegou a tocha e continuou seu percurso até entregar a tocha para a próxima condutora sob aplauso de cerca de 50 mil espectadores no Maracanã. Inesquecível. Também de arrepiar a cena da pira sendo acesa por ninguém menos do que o campeão Clodoaldo Silva, mais conhecido como “Tubarão”, um “verdadeiro peixe” nas piscinas. Ele parou diante da dificuldade de uma longa escadaria. Mas, conforme foi chegando próximo, a escadaria ia se abrindo e transformando-se em rampa.

Cenográfico, sim, ainda distante da dura realidade do dia-a-dia enfrentado pelos deficientes. Mas inspirador, sem dúvida. As entrevistas e os relatos dos paratletas e suas famílias nos dão lições, muitas lições. O próprio Clodoaldo tem reiterado que “ a pessoa com deficiência não necessita de piedade, mas de oportunidade”.

Estas oportunidades são ainda mais raras nos rincões de um Brasil tão continental quanto diverso. De acordo com o IBGE, a Região Nordeste registra os maiores níveis para todas as deficiências. Já a Região Sul apresentou o menor percentual de pessoas com deficiência visual, a Centro-Oeste, a menor taxa de deficiência auditiva e motora, e a Região Norte, tem menos deficientes mentais.

A legislação que obriga empresas a abrirem vagas para este contingente de brasileiros tem avançado – inclusive com adesões relevantes de várias empresas do mercado de seguros gerais, saúde, previdência e capitalização, como ilustram os Relatórios de Sustentabilidade –, mas ainda tem um longo caminho até que se transforme em realidade. Faltam treinamento adequado para qualificar estes brasileiros para exercer suas funções e infraestrutura capaz de viabilizar o acesso ao mercado de trabalho. Escolas inclusivas capazes de atender às necessidades de quem precisa, mas sem criar uma legião de excluídos e também cidades inteligentes que viabilizem o ir e vir de todos.

Não é tarefa para uma Paralimpíada viabilizar toda a mudança de cenário. Mas o começo do processo “nasceu”, digamos assim. As novas gerações estão cientes de que apenas com todos juntos, incluídos, poderemos nos considerar uma sociedade realmente avançada. Este é o maior legado, muito além de bens materiais que possam ficar. Neste sentido, acredito ser possível sim acreditar que nos próximos anos teremos avanços capazes de tirar de casa e realmente incluir estas pessoas. Deficientes? Não sei se é o melhor termo. Diferentes, mas normais, como destaca uma excelente campanha publicitária sobre Síndrome de Down. Os paratletras mostraram que são tão capazes quanto todos. Como a Cerimônia de Abertura destacou, bate um coração dentro de cada um. Que este coração nos mova na direção de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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