Conferência Ethos: a sustentabidade vista de um caleidoscópio

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outubro 3, 2016

Conferência Ethos: a sustentabidade vista de um caleidoscópio

Tente definir sustentabilidade em apenas poucas palavras. Ou com um só conceito. Tarefa praticamente impossível. Por ser holística e multifacetada, a sustentabilidade abraça um sem-número de conceitos e definições. Lembra uma mandala ou um caleidoscópio, feito o que tive quando criança, brinquedo simples perto das inovações tecnológicas atuais – um tubo de papelão reforçado com pequenos pedaços de vidro colorido que iam se agrupando a cada rodada, formando uma nova imagem.

Pois foi esta a sensação de dois dias intensos de palestras e diálogos após a Conferência Ethos 360º – diálogos e compromissos para transformação do Brasil, realizada no Transamérica Expo Center, em São Paulo, nos dias 20 e 21 de setembro. Evento intenso em conteúdo e diferenciado também na forma. Para quem ainda não vivenciou esta experiência, a Conferência foi realizada no modelo 360º, com cinco palestras acontecendo simultaneamente. Os palestrantes e o público ficam conectados através de fones de ouvido, com um evento quase silencioso.

Fica, entretanto, aquela sensação de divisão/escolha por ter que saber qual das cinco palestras será a mais relevante naquele momento. É verdade que a transmissão – como se fosse uma estação de rádio – permite a troca de canais para ouvir o que está acontecendo ao lado sem nem precisar se levantar. Mas a angústia só aumenta. Como no caleidoscópio, as figuras e cores se movimentam e aumenta a ansiedade se a escolha do tema e dos palestrantes foi a mais acertada.

Vários temas em debate nesta Conferência Ethos – realizada desde 1999 e atualmente considerada um dos maiores eventos na área -, como transparência e ética, cadeia de valor, diversidade, Direitos Humanos, integridade, etc. Com nomes mais do que relevantes em cada diálogo, como autoridades, empresários, consultores do Terceiro Setor ou integrantes da sociedade civil. Como destacou o programa de apresentação do evento, “em um momento de deflagrada crise política e econômica, repensar estratégias e buscar por alternativas torna-se preponderante”. De olho na crise, o evento contou com menos participantes do que em edições passadas e um número menor de patrocinadores também. Mas, nem por isso perdeu em relevância e conteúdo.

Conseguimos acompanhar várias destas rodas de diálogo. Começamos pela incrível palestra sobre Sustentabilidade e lideranças, contando com um dos fundadores da Natura, Guilherme Leal. “A sustentabilidade é essencial e não se trata de bom-mocismo das empresas. Este é um caminho sem volta”, alertou.

Outra temática muito interessante foi a que conectou a novela “Velho Chico” com a sustentabilidade. “É muito preocupante que o Brasil ainda seja um dos campeões no uso de agrotóxicos”, advertiu o professor Ricardo Abramovay, da USP. O jornalista José Raimundo, da TV Globo, na Bahia, um profundo conhecedor da região do Rio São Francisco, foi o moderador desta mesa e destacou o papel didático da novela ao condenar não só o uso de agrotóxicos, mas também por denunciar o mau uso do solo e práticas nada sustentáveis.

O representante da WWF-Brasil, economista Carlos Nomoto, citou o papel inovador do compartilhamento no cenário atual, como no caso de reservas de hospedagem, bicicletas, corridas de táxi, etc. “Isso reduz e muito as emissões. Algo muito interessante a ser percebido. ” E destacou que atualmente o conceito de ser sustentável precisa ser também “fashion e inteligente.”

Inovação e Sustentabilidade nas pequenas e médias empresas foi o tema de outra mesa. Linda Murasawa, Superintendente de Sustentabilidade no Santander Brasil, falou da agilidade das pequenas empresas como vantagem para aproveitar oportunidades presentes no mercado. “As pessoas apontam os riscos e muitas vezes esquecem das oportunidades”, disse ela. Felipe Bottini (Green Domus) complementou a conversa sobre inovação dizendo que o caminho é fazer as perguntas que ninguém faz.

A relevância de buscar a sustentabilidade em toda a cadeia de valor também foi debatida na Conferência Ethos 2016. Especialistas lembraram que é preciso vigiar toda a cadeia de valor para que a operação inteira seja sustentável. “Se não tiver um bom controle e fiscalização, a reputação da empresa pode ser prejudicada”, destacou

Israel Aron, da Cyrela, comentando as questões de sustentabilidade na cadeia de fornecedores na construção civil.
O caleidoscópio girando e um novo assunto relevante abordado no tema foi a questão dos refugiados no mundo e também no Brasil. Representante da Acnur no Brasil, Agência de Refugiados da ONU, chamou a atenção para números dramáticos: são 65 milhões de pessoas em situação de migração forcada no planeta, dos quais 21 milhões são refugiados em diversos países, enquanto os demais nem conseguem cruzar as fronteiras. Na maioria, mulheres e crianças. Francine, refugiada do Congo, contou sua experiência no Brasil e como está contente por ter oportunidade para trabalhar em uma rede de varejo.

Em outra mesa, o Professor. Arilson Favareto alertou que muito se discute sobre a crise atual mas também é urgente e preciso pensar nas perspectivas do crescimento para além da recuperação da economia. “A grande questão é: temos condições de montar uma colisão social para colocar em prática as ações necessárias nesta sociedade tão fragmentada em que vivemos?”, advertiu o professor no Fórum Soluções: caminhos para superar os desafios da implementação dos Objetivos de desenvolvimento Sustentável no Brasil.

Em mais uma rodada dos dois intensos dias de reflexão, a conversa foi sobre Consumidores em busca da Sustentabilidade: quais as implicações para empresas e o consumo. Hélio Mattar, dirigente do Instituto Akatu, destacou a necessidade das empresas saírem do paradigma individual, tentando apenas entender o consumidor antes de lançar seu produto para um paradigma mais coletivo com foco em entender o impacto posterior e manter um diálogo contínuo com seus stakeholders.

 Enfim, um grande universo de diálogos relevantes. Porque, afinal, a migração para uma economia de baixo carbono está apenas começando. O caleidoscópio gira, gira. E esperamos, em breve, termos ainda mais resultados para compartilhar.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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