Sustentável 2016: clima, o futuro das cidades e governança em debate

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novembro 1, 2016

Sustentável 2016: clima, o futuro das cidades e governança em debate

Se há uma área que tem registrado um forte crescimento na realização de eventos nos últimos dez anos é a de sustentabilidade. Isso é uma ótima notícia. No entanto, o drama é que dependendo da época, a agenda é tão intensa que chega a ser difícil acompanhar tantos seminários e workshops.

Alguns destes eventos se tornaram verdadeira referência, como é o caso do Sustentável, realizado anualmente pelo Cebds (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável). Este ano, o encontro foi realizado no simbólico Museu do Amanhã, fincado solenemente na nova área de lazer e conhecimento do Rio de Janeiro, no Boulevard Olímpico, onde antes a histórica Praça Mauá sofria com a falta de segurança e bom uso do equipamento cultural.

A versão recente do Sustentável 2016 mostrou, mais uma vez, a relevância desta roda de diálogo. Coordenado de perto pela presidente do Cebds, Marina Grossi, e sua jovem e aguerrida equipe, o evento trouxe reflexões e pontuações pertinentes num cenário de tantas incertezas e dúvidas. O primeiro painel tratou sobre a sustentabilidade em tempos de crise e a possibilidade de financiamento via bônus verdes (green bonds), com as presenças do economista Sergio Besserman Vianna; do jovem Roger Koeppl, da YouGreen – que produz sabonetes em barra em cooperativa a partir de óleo reciclado coletado em diferentes pontos –; da norte-americana Justine Leigh-Bell, da Climate Bonds Initiative, e moderação de Linda Murusawa, superintendente de Sustentabilidade do Santander Brasil.

Para um auditório lotado com cerca de 500 pessoas – público recorde bem diversificado, formado por consultores, jornalistas, estudantes e interessados na temática – Justine destacou as grandes oportunidades de investimento verde que o Brasil dispõe atualmente e lembrou que não estamos mais no momento de discutir as questões ambientais, porque já sabemos quais são os problemas. “É tempo de tomar decisões, mobilizar, educar e fazer as pessoas entenderem o que essa oportunidade significa. O Brasil precisará de muitos investimentos para fazer sua transição para a economia de baixo carbono e a NDC (contribuição nacionalmente determinada) brasileira é uma das mais ambiciosas do mundo”.

Na sequência, Besserman alertou para os riscos apresentados pelo clima, como no impacto sobre as cidades e as marés, mas foi otimista mostrando que o Brasil tem grande potencial para se destacar na mudança de modelo para a economia de baixo carbono. “Se o mundo migrar para a economia de baixo carbono, só existe um país que se tornará bem mais competitivo que os demais: o Brasil. Essa é a nossa grande chance de nos reposicionarmos na economia global e financiarmos nossas aspirações de combate à pobreza e à desigualdade social”. Ele também falou sobre a importância de mecanismos como a precificação de carbono. “Quando o carbono estiver efetivamente precificado, incluído no preço de tudo, muitos ganharão e outros perderão em competitividade”.

O jovem Roger Koeppl provocou polêmica com a sua fala, defendendo ser possível sim fazer mais de outra forma, diferente do modelo tradicional, do business as usual. Defendeu o cooperativismo e brincou com a plateia dizendo que não espera ver em alguns anos diretores e gerentes de Sustentabilidade, mas sim a preocupação e empenho de toda a empresa com este tipo de temática. “Não quero gerar mais desemprego, mas este assunto deve ir muito além de um departamento”, afirmou.

Para Marina Grossi, o evento aconteceu em um momento de grande desafio, em que o mercado precisa rever práticas e aprender a dimensionar, por exemplo, o valor de elementos hoje ignorados nos planos de negócios tradicionais, como uma floresta em pé, água de qualidade ou uma população com acesso a educação e bem-estar: “No novo cenário que se anuncia, os preços relativos de produtos e serviços vão mudar completamente para refletir o custo do carbono embarcado em cada item”.

Guia de Títulos Verdes – No evento foi lançado o Guia para Emissão de Títulos Verdes no Brasil, uma parceria do Cebds e da Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), com o objetivo de orientar os participantes e interessados no mercado de renda fixa brasileiro em relação ao processo de emissão desses papéis e também contribuir para o desenvolvimento no País. Estes títulos verdes são papéis de renda fixa usados para captar recursos com o propósito de implantar ou refinanciar projetos e compra de ativos capazes de trazer benefícios ao meio ambiente ou ainda contribuir para amenizar os efeitos das mudanças climáticas.

Outra roda de diálogo, na parte da tarde, abordou a relação entre os negócios e os recursos naturais, contando com as presenças de Ana Szklo, gerente sênior de projetos do CEBDS; Kevin Moss, do World Resources Institutte; Marcelo Alonso, superintendente de Sustentabilidade da Natura e moderação de Daniela Lerda, da CLUA/ Fundação Ford.

Ana falou sobre a criação do protocolo de capital natural e do esforço que vem sendo feito pelo WBCSD (World Business Council for Sustainable Development) para criar um protocolo parecido. “A ideia é entender como os negócios podem impactar a sociedade e valorar esse impacto. Temos de compreender isso e fazer com que as empresas incluam em suas decisões estratégicas três pilares: econômico, social e ambiental”, explicou.

Marcelo Alonso lembrou que há várias iniciativas em curso para reduzir emissões de gases de efeito estufa na Natura e outras tantas ações de neutralização. Iniciativas no processo produto e também na logística de distribuição dos itens para as revendedoras em diferentes pontos do país. Além disso, um novo produto antes de ser lançado tem que passar numa linha de testes para ver se é realmente sustentável. “Somos a primeira geração que pode acabar com a pobreza no mundo e a última que pode frear o aquecimento global. Isso é mais do que inspirador”, finalizou.

Cidades e mobilidade urbana foram os temas da terceira roda de diálogo, contando com as participações de Jailson Silva, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e diretor da ONG Observatório de Favelas; Pedro Junqueira, diretor do Centro de Operações da Prefeitura do Rio; Rasmus Valanko, diretor do WBCSD e moderação do professor da Coppe/UFRJ, Ronaldo Balassiano.

Jailson lamentou que ainda não existe um planejamento que leve em conta a questão de moradias cada vez mais distantes do local de trabalho e destacou também a importância das favelas, como “constituinte da cidade, um espaço de invenção.” Pedro Junqueira destacou o papel decisivo do COR não só na coordenação dos principais serviços e logística da cidade, mas também no trabalho de prevenção, como no caso de chuvas e outras catástrofes. Citou também o Rio + B, projeto da Prefeitura do Rio em parceria com outras organizações que incentiva empresas a avaliarem e tomarem consciência de seu impacto socioambiental, visando engajar a iniciativa privada na agenda de sustentabilidade da cidade. Os carros elétricos e outras alternativas de mobilidade de baixo carbono foram destacados pelo holandês Ramus Valanko.

O evento foi encerrado com a participação de lideranças expressivas do desenvolvimento sustentável no Brasil, com as presenças de Israel Klabin, presidente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e de Erling Lorentzen, presidente de honra do CEBDS. Outro pioneiro, o ex-ministro e ex-presidente da Vale, Eliezer Batista, também foi homenageado, mas não pode comparecer. A presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos Marques, também participou da roda de diálogo, destacando o papel do Fundo Amazônia, com doação de recursos dos governos da Noruega e da Alemanha.

Enfim, um dia intenso de grandes reflexões, para inspirar e fazer pensar.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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