Trump, incertezas, economia, clima e muitas dúvidas

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novembro 10, 2016

Trump, incertezas, economia, clima e muitas dúvidas

Enquanto os analistas políticos tentam entender e explicar o resultado das urnas nas Eleições dos Estados Unidos, que garantiram a vitória para o republicano Donald Trump, o mundo acordou neste 9 de novembro de 2016 diante da surpresa e de muitas dúvidas. Não por acaso – para os que acreditam em numerologia ou mesmos os céticos – o resultado foi confirmado em 9/11, invertendo a data fatídica da série de atentados terroristas de 11/9 em 2001.

Dito isso, é preciso separar o joio do trigo, jogar água na fervura e analisar friamente os resultados das urnas americanas. Há uma grave crise econômica global, atingindo não só países em desenvolvimento, como o Brasil, mas também as chamadas economias centrais. Desemprego, recessão e falências são assuntos cada vez mais frequentes para os norte-americanos. Grandes polos industriais, como a outrora metrópole automobilística Detroit – se transformaram em cidades quase fantasmas. Desde 1960, a população de Detroit caiu de 2 milhões de habitantes para cerca de 700 mil e, quando se imaginava que nada de pior pudesse mais acontecer, em 2013, as autoridades de Detroit declararam a cidade falida. Há esforços pela recuperação de Detroit e outras cidades em crise, mas os sinais ainda são tímidos. O mercado financeiro, o comércio e o turismo para grandes centros ainda funcionam como alavancadores, mas mesmo quem viaja com frequência começa a ver em Nova York, Miami e Orlando sinais também de exaustão.

Não é só. Bom registrar há todo um recrudescimento e forte debate em torno da questão dos imigrantes, do fortalecimento de grupos extremistas que apoiam o terrorismo e do impacto severo para a economia – seja nos Estados Unidos ou em países europeus, como a França e a Alemanha. Some neste caldeirão de conflitos internos, também a pressão de guerras externas e a força de produtos vindos de países como a China, roubando mercado e empregos. Trump falou insistentemente em sua campanha de “fazer a América novamente forte e grande”, com mais investimentos, empregos, em ações protecionistas, em controlar os imigrantes ilegais, deportá-los e até mesmo construir um muro entre a fronteira do Texas e o México.

Não serão tarefas fáceis, nem tampouco viáveis da noite para o dia.  Algumas, provavelmente, não passarão de promessas de campanha. Especialistas destacam que a economia sabe ajustar nos preços promessas, sonhos e incertezas. A reação dos mercados financeiros neste dia 9 de novembro comprovou isso. O novo presidente – homem de negócios que chegou a falir três vezes ao longo de sua vida – sabe que será preciso adaptar o discurso à realidade. O empresário que fez carreira e fama na área imobiliária e financeiro ganhou fama mesmo como programa de TV “O Aprendiz”, e decidiu entrar para a política nos últimos anos. Frisou sempre não ser “um político tradicional”. Foi o vencedor. O republicano eleito – que chegou a ser desacreditado por seus pares quando começou a corrida presidencial há mais de um ano – destacou em seu discurso que “será um presidente de todos”. A candidata democrata, Hillary Clinton, fez um discurso emocionado, assumiu a derrota, falando de um país dividido e o presidente Barack Obama falou em “unidade do país”.

Não serão anos fáceis, advertem os especialistas. O economista John Kenneth Galbraith escreveu o livro “A era da incerteza”, tema também de série televisiva. Nunca foi tão atual. Estudioso do assunto, recém-chegado de uma viagem aos EUA, o cientista político Sergio Abranches analisou os resultados das urnas no site Ecopolítica. “Trump foi eleito por meio de um claro e radical realinhamento partidário. Sua vitória redesenhou a geografia do voto nos Estados Unidos, cortando fronteiras republicanas e democratas. Venceu no “rust belt”, em estados que sempre foram bastiões democratas, como a Pensilvania e Wisconsin. Além disso, apesar de não fazer uma campanha em sintonia com a dos republicanos, ele puxou votos para assegurar ao partido a maioria na Câmara e no Senado. Os eleitos lhe devem isso”, destacou Abranches.

Destacanos ainda que, justamente nesta semana, começaram os encontros sobre a questão do clima na Cúpula do Clima, a COP-22, que está sendo realizada em Marrakesh, Marrocos. Há uma grande expectativa sobre o encontro. O presidente da COP22 Salaheddine Mezouar destacou em sua fala a “oportunidade de ouvir países mais vulneráveis, em particular as nações africanas e das ilhas”, que pouco contribuem para o aquecimento global e sofrem severamente suas consequências. E a Ministra do Meio Ambiente da Franca, Ségolène Royal, presidente da COP21, abriu o seu discurso com um apelo tanto para os países que já ratificaram o Acordo de Paris como aqueles que não. “Os objetivos do Acordo podem ser cumpridos com determinação. É um momento histórico, mas para isso cada país precisa ratificar o acordo e cumprir suas promessas”.

De Marrakesh, tivemos retorno sobre a repercussão da vitória do republicano para esta negociação. Ainda será preciso esperar para saber exatamente o impacto desta mudança de governo de Barack Obama para Donald Trump.

“A eleição de Donald Trump, pelos interesses que ele representa, deve ter impacto sobre a ação climática dos Estados Unidos. Isto posto, a agenda climática deixou de depender de apenas um país, como no passado. O Acordo de Paris já tem 102 ratificações, além da americana, e esses países não vão esperar pelos EUA para agir, porque isso é interesse deles. Uma economia inteira baseada em energias renováveis está em movimento no mundo, e representa uma fatia crescente do PIB e da geração de empregos nos próprios EUA. As convicções pessoais de Trump terão, em alguma medida, de se enquadrar a essa realidade”, avaliou Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Outro observador próximo da temática do clima é André Ferretti, gerente de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário e coordenador-geral do Observatório do Clima. Também direto da COP-22, ele analisou: “Por mais chocante que seja o resultado da eleição, e por mais que o vencedor já tenha professado seu desamor por diversos valores da democracia, um sistema democrático inclui a alternância de poder, e isso é saudável. Esta eleição, num momento em que a ação contra as mudanças climáticas no mundo finalmente começou a atingir a economia real, dá aos republicanos a chance de se reconciliarem com o resto do mundo e com a vida real. E, na vida real, continuamos batendo recordes de temperatura e de eventos extremos, que atingem democratas e republicanos sem distinção.”

São dúvidas e incertezas que marcarão os próximos anos. Trump sabe que não estará mais em campanha: precisará governar para todos e os reflexos para o xadrez mundial são impactantes. O mundo estará atento.

Sonia Araripe
Sônia Araripe é jornalista com 30 anos de experiência em várias redações, especializada em economia, finanças e seguros, diretora de Plurale em Revista e colaboradora quinzenal da coluna Sustentabilidade: Teoria e Prática, do site CNseg Sustentabilidade em Seguros.

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